Sábado último foi um dia estranho, pra dizer o mínimo. Eu tinha programado um monte de coisas, mas nada deu certo. Aí, fiquei com aquele dia livre. É tão estranho quando isso acontece. Pude ficar o tempo todo na minha casa, na minha cama, sem fazer nada de proveitoso, só descansando e cochilando.

 

Mas à noite eu queria muito ir ao teatro. Aí fui ver Doroteia, do Nelson Rodrigues. Está em cartaz no Teatro Tom Jobim, que eu amo. Fica dentro do Jardim Botânico e é um espaço fabuloso para teatro. Palco totalmente transformável, pode ser de arena, pode ter um formato parecido com o italiano, enfim, bastante versátil.

 

Para essa montagem, o diretor optou por uma arena quadrada, com plateia dos quatro lados. A peça é uma das mais estranhas do velho Nelson. Tem um conteúdo simbólico muito forte e, a depender da montagem, fica totalmente ininteligível. Ainda mais que algumas referências fortes no texto são totalmente datadas. É um texto escrito na primeira metade do séc. XX. O Brasil ainda era um grotão, um lugar incivilizado – e isso é um elogio, considerando-se a opinião que tenho da civilização atualmente.

 

Mas várias referências textuais são relativas à situação de precariedade material do Rio de Janeiro daquela época e o diretor conseguiu torná-las claras sem necessidade de didatismo. Jorge Farjalla está de parabéns nesse quesito.

 

Não só neste. A encenação é muito boa. O cenário tem um ponto excelente, que é a sua ausência completa. Só uma cadeira, em que se senta a personagem de Rosamaria Murtinho está no palco e tudo o mais é apresentado pelo trabalho dos atores em cena. Mas as quatro árvores mortas, uma em cada canto do palco, muito embora lindas, parecem estar lá só por estar. Na minha modesta opinião, não fazem a menor falta.

 

A encenação conta ainda com um grande elenco masculino, que aparece quase o tempo todo de  máscara, inexistente no original. Mas esse elenco traz a riqueza de fazer os efeitos e a trilha sonora toda ao vivo, o que acrescenta um valor extra ao espetáculo.

 

Rosamaria Murtinho é um espetáculo à parte. A d. Flavia que ela criou está deslumbrante. Forte, visceral como deve ser um personagem mítico. Ela e as irmãs assemelham-se às bruxas de MacBeth (nem imagino se de propósito, mas se não, foi um feliz acaso). A Letícia Spiller está muito bem no papel da Doroteia. Temos de aplaudi-la sempre. Não teme fazer peças difíceis, espetáculos que talvez sem a presença dela ficassem relegados à falta de público que atormenta os atores atualmente.

 

Enfim, é um espetáculo que merece muito ser visto, muito embora eu tenha cochilado nos últimos minutos, mas isso é muito comum em mim. A partir da semana que vem, pode ser visto na Barra da Tijuca: http://www.barrazine.com.br/2016/05/peca-leticia-spiller-nelson-rodrigues-cidade-das-artes/

 

Eu tinha ido com a minha amiga Mariana Imbelloni. Depois do espetáculo, o perrengue de voltar pra Zona Sul de ônibus. Enquanto estávamos descendo a r. Jardim Botânico, o 584 passou. Aí ficamos mofando no ponto esperando o próximo. Conversamos muito, como sói acontecer sempre que nos encontramos. Conversa vai, conversa vem, nem vimos o tempo passar.

 

Não sei se porque estávamos conversando sobre vários filmes, vários livros, amenidades, uma conversa verdadeiramente animada, a moça que estava na parada perguntou se íamos para Ipanema. Era o nosso destino – ainda queríamos uma cervejinha pra encerrar a noite – então respondemos afirmativamente.

 

Aí ela – a moça – simpaticamente nos ofereceu carona porque tinha se cansado de esperar o ônibus. Lógico que aceitamos e fomos de Uber para a General Osório. Lá dentro o papo continuou. Viemos pela rua da praia, um mar ressaqueado lindo!

 

Só ao chegarmos ao destino e desembarcarmos perguntei o nome da moça. Imagina, lá dentro do carro, eu dizer “muito prazer, meu nome é Cristovam. O seu é?” O motorista do uber ia achar que era assalto, sei lá. O nome da moça é Catarina. Obrigado, Catarina, pela carona.

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