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LITERATURA

foto da capa do livro tirada por Nelson Avila

Pela primeira vez na vida estou participando de um grupo de leitura. Amigos que se reúnem em torno de uma mesma obra, leem e discutem a respeito do que leram. Tive uma experiência semelhante em 2016, quando a Casa de Cultura Laura Alvim estava fechada para obras e a minha muito amada professora Susanna Kruger abriu as portas de seu estúdio particular para um grupo de 5 pessoas lerem e aplicarem os ensinamentos do volume I da obra de Stanislavski (A Preparação do Ator). Era também um estudo coletivo de uma obra, mas tinha aplicação prática. Estávamos estudando e tentando aprender a arte do ator. No grupo atual, não. Apenas estamos lendo e conversando.

A ideia surgiu num encontro virtual – esses dias de pandemia têm feito isso conosco – em que uma amiga estava lendo o romance Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves, num outro grupo composto majoritariamente por sociólogos. Outra pessoa falou: poderíamos ler em conjunto. Pronto. Formou-se a ideia que foi levada adiante. A vantagem de estarmos vivendo essa realidade estranha, impedidos de sair de casa, viajar, ter atividades fora acabou proporcionando isso. Este grupo é formado por pessoas de vários lugares, alguns já se conheciam pessoalmente, outros somente pelo whatsapp.

O título do romance advém de um dispositivo legal destinado à discriminação de raça, instituído no Brasil ainda no período colonial e que se repetia em vários lugares do mundo. Havia posições privativas para pessoas brancas. Postos e cargos públicos, profissões, enfim, na prática, um apartheid. Caso a pessoa negra se destacasse em alguma atividade, ou desejasse e lutasse muito por um cargo, poderia pedir à coroa que lhe desculpasse do “defeito de cor”.

Embora tenha sido revogado há muitos anos, na prática, percebe-se os reflexos desse tipo de legislação ainda em nossos dias. Bem recentemente duas empresas, a Magazine Luíza e a Bayer, ofereceram programas de trainee exclusivamente para pessoas negras e a polêmica gerada por essas atitudes foi imensa nas redes sociais. É bem interessante perceber o efeito na população de pele mais clara, quando, pela primeira vez, se viu afastada de “espaços de poder”.

foto do grupo de trainees do banco itaú, disponível no link: https://exame.com/carreira/quem-e-e-o-que-pensa-o-trainee-aprovado-pelo-itau-unibanco/

A escravidão começou no Brasil ainda em 1530, quando os portugueses invadiram e começaram a dizimação da população local, e durou, legalmente, até 13/5/1888, quando Isabel, sem alternativas, assinou na qualidade de regente, a Lei Áurea. Na prática, no entanto, os efeitos benéficos dessa libertação ainda não foram sentidos. A celeuma provocada pela atuação do Magalu é reveladora disso. Anteriormente, embora não estivesse escrito em lugar nenhum, os programas de trainee (o que quer que isso signifique), no Brasil pelo menos, eram ocupados EXCLUSIVAMENTE por pessoas de pele mais clara. Não se viam negros, pardos, populações originárias, enfim, nenhuma diversidade. Mas não havia, tampouco, nenhuma referência ou reclamação quanto a isso. Aí, esse grande varejista de produtos diversos, e que tem tentado agir com a justiça social possível no meio do capitalismo, abre essa brecha. É muito interessante perceber o defeito de cor ser aplicado de forma reversa. Quando o sapato aperta o meu calo, aí eu grito. Enquanto é o pé alheio que sofre, minha empatia é nula?

Voltando ao romance, ele conta a história de uma heroína. Mistura ficção com história para contar a história de Kehinde (pronuncia-se Keindé), uma Ibêji* de Abomey, cuja trajetória de dor é revertida por ela mesma e por uma mitologia nagô/yorubá/fon que permeia quase um século de existência. Supostamente, Kehinde seria Luísa Mahin, a mãe do grande abolicionista Luís Gama. Praticamente nada se sabe de Luísa Mahin, porque Luís Gama foi uma personalidade de luz própria e pouco conviveu com a mãe por conta de sua própria tragédia pessoal, mas Ana Maria Gonçalves aproveita dessa ignorância para preencher com ficção imaginativa, baseada numa imensa pesquisa histórica, as peripécias e reviravoltas da vida da protagonista.

Assim fazendo, Ana Maria nos traz um vibrante retrato da sociedade imperial brasileira. Os maus tratos constantes a que eram submetidos os africanos escravizados, as nuances das relações de micropoder (de novo, perdão pelo neologismo) que certamente tinham, e ainda têm, reflexos na estrutura social que herdamos. Para ler a obra, temos de trazer à mente o “normal” da época, por mais que hoje isso nos deixe revoltados. A exploração da mão-de-obra escravizada, base do capitalismo contemporâneo, era aceita como natural, porque justificada por religiosos e pseudocientistas. Por causa disso, as estratégias particulares de sobrevivência eram as mais diversas e nem sempre honestas, mas observadas de acordo com a perspectiva da época, perfeitamente compreensíveis e escusáveis (para falar a verdade, de um ponto de vista mais ontológico, qualquer desonestidade que o escravo viesse a cometer contra o senhor é não só escusável, mas plenamente justificável).

O caráter transcendental também atravessa todo o romance. Kehinde faz a viagem de vinda para o Brasil e, depois de conseguir a liberdade, enriquecer com o comércio, iniciar-se nos voduns de sua ancestralidade, tomar conhecimento dos ritos necessários para se aprimorar, retorna à África e lá enriquece ainda mais. Os deuses e entidades sagradas dos panteões africanos do Dahomé e da Nigéria a acompanham nesse périplo e têm uma função importantíssima no deslinde da obra. Mas não se preocupem, não estraguei quase nenhuma surpresa do livro. Este é apenas o sumário generalista da história. Há que lê-la e degustá-la cuidadosamente.

E ao atravessar essa história, por favor, leitor, ouça os ecos da contemporaneidade gritados desde o século passado. Muito de nossa maneira de nos estruturar social, econômica e politicamente está fundado nos primeiros anos do nosso império. Entender o que aconteceu no séc. XIX é importante para compreender em que ponto estamos agora. E este livro traz a perspectiva das pessoas que jamais tiveram voz.

Segundo a própria autora, é o romance que ela gostaria de ter lido. Se um dia eu a conhecer, poderei lhe dizer que foi um romance que eu amei ter lido e que teve um efeito avassalador sobre mim. Obrigado Ana Maria Gonçalves.

3 respostas

  1. “Um defeito de cor” definitivamente mudou minha forma de olhar para todo um pedaço da história. Além de ser uma super aula. Depois de ler ele fui pesquisar sobre várias revoltas que nem conhecia! Muito necessária essa atualização do tema. Afinal, tiraram dos códices mas tanta gente ainda está na mesma lógica de perdoar “o defeito de cor” e nunca enfrentar o próprio racismo né. Ótimo texto e reflexão!

  2. Incrível o texto. Reflexão absolutamente necessária, ainda mais nos tempos atuais. Esse episódio do programa de trainee foi muito bem apontado. Constantemente surgem situações análogas e o racismo estrutural segue firme.
    Preciso encomendar esse livro com urgência. Muito obrigado!

  3. Amei o texto, Cris.

    “Um defeito de cor” é romance que se cose na pele. Até hoje, ao pensar em alguns momentos do livro, me arrepio. A escrita é definitivamente um dos instrumentos mais poderosos que há.

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