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CINEMA

Princesas da Disney

Daí abro o tuíter e vejo um post com a seguinte história: neto faz ensaio fotográfico com a avó de 84 anos vestida de princesa da disney. Nem preciso dizer o quanto esse tipo de matéria me aborrece, porque tenho um ranço de princesa da disney  que ninguém me tira.

Vamos lá:

Branca de Neve. A garota é linda e faz inveja para uma rainha devotada apenas para a aparência, para as futilidades da vida. Começa por aí. O pai da garota morre e ela será perseguida pela madrasta, enfurecida. Ela manda um caçador matar Branca e ele, sem coragem mata um veado (tadim do bichim) e leva o coração para a madrasta. Branca foge assustada – uma princesinha que viveu a infância no castelo, protegida e paparicada, foge no meio de uma floresta medieval, cheia de animais famintos e sobrevive. Tá bom… – Ela, então, encontra uma cabana, habitada por anões mineiros e passa a viver de favor ali, lavando, passando, arrumando, cozinhando. A rainha, cuja busca pela beleza perfeita a levou a adquirir um espelho mágico, continua a perguntar ao objeto se há mulher mais linda que ela. Obsessão estranha, mas ajuda a compreender a busca incansável pela beleza de algumas pessoas. O espelho, já que tem conhecimento de tudo, diz que Branca não foi morta. Irada, a madrasta (não tem nome, só é conhecida como rainha ou madrasta da Branca de Neve) se rende a poderes nefandos e envenena uma fruta, a ser oferecida à adolescente. A menina come a fruta e “morre”. Os anões, desolados com a perda da escrava branca, fazem-lhe uma redoma em que ela repousa no meio da mata. Um príncipe passa por ali e, fascinado com a beleza da morta, dá-lhe um beijo, arranca o pedaço da fruta envenenada e Branca ressuscita, se casa e a madrasta se joga de um precipício.

Grosso modo, é isso o que se passa na animação, adaptada de um conto dos irmãos Grimm. A tradução pode ser lida no seguinte link: https://www.grimmstories.com/pt/grimm_contos/branca_de_neve

Fico pensando aqui, sem conclusão alguma, mas levantando questões, já que esse desenho influenciou milhões de crianças ao longo do tempo, desde que o desenho foi lançado em 1937. Obsessão com a beleza física, falhas de caráter, submissão feminina, necrofilia, e “otras cositas más”, são exaltados no desenho de forma subliminar, como se fossem totalmente naturais.

A Bela Adormecida. Esta é pouco lembrada como princesa, talvez porque o desenho não seja de um grande amor, mas de um rancor. No desenho da disney, vemos o papai e a mamãe tão felizes com o nascimento da pequena aurora que se esquecem de convidar malévola para o batizado da criança. De toda forma, ela vai de penetra e lá chega antes da última fada madrinha presentear com um dom. Malévola lança uma maldição, determinando a morte de Aurora, ao furar o dedo numa roca (objeto usado para fiar algodão). A última fadinha, então, reverte o feitiço, dizendo que Aurora não morrerá, mas ficará adormecida até que o beijo do verdadeiro amor a desperte. O tempo passa, Aurora chega à adolescência e, mesmo o rei tendo determinado a destruição de todas as rocas (como é que fizeram para tecer depois disso é um mistério, mas foram 16 anos sem produzir fio de algodão, linho ou lã), sobrou umazinha e Aurora se fere e cai num sono profundo, juntamente com toda a corte. Passam-se anos e uma mata espinhenta cresce ao redor do castelo. Um belo dia, um príncipe vai salvar Aurora. Não me lembro bem se ele sabia, se era amigo de infância da princesa, se os pais eram amigos. O fato é que o príncipe vai lá. Malévola se transforma num dragão enorme (uma das cenas que mais gosto em desenhos da disney – tá bom, não é que eu odeie tudo: a produção é fabulosa. Só peço que as pessoas se conscientizem da propaganda burguesa por trás das histórias). O príncipe vence o dragão, os espinhos e desperta a princesa. Depois se casa com ela.

Esta história me incomoda um pouco menos, mas mesmo assim, temos o abuso sexual de uma adolescente adormecida naturalizado.

Chego, por fim, ao último clássico a ser visto hoje: Cinderela. Esta é uma das mais estranhas e perturbadoras histórias de fada que a disney desenhou. Depois de enviuvar, um rico proprietário de terras, pai de uma filha adorada, se casa com uma mulher, mãe de duas filhas mais ou menos da mesma idade. O pai morre e Cinderela vira serva da madrasta e das filhas dela. É maltratada, obrigada a fazer todo o serviço doméstico, trancada num sótão, e, no desenho, conversa com os animais da propriedade. Cinder é cinza. Na tradução para o português, uma das versões, intitulou esse conto de “a gata borralheira”, borralho sendo, também, cinzas, mas as cinzas do fogão de lenha. Pois bem. O príncipe do lugar precisa se casar e o pai dele dá um baile, para o qual todas as moças solteiras são convidadas, a fim de escolher uma noiva. Cinderela queria ir ao baile, como todas as outras, mas a madrasta e as irmãs a impedem. À noite, depois das três megeras partirem para o castelo, a fada madrinha aparece e dá um jeito: arruma um vestido deslumbrante, transforma uma abóbora em carruagem, ratos em magníficos cavalos, o gato em pajem de librè, enfim, uma pompa. E o toque final é o sapato de cristal. Avisa, no entanto, que o feitiço só dura até a meia noite daquele dia e manda a garota para o rebuceteio. Quando a garota entra, com o vestido encantado, os sapatos de cristal, o príncipe fica imediatamente apaixonado por ela e só dança com ela e tal e coisa. As três megeras não a reconhecem – o que eu acho meio bizarro, mas é conto de fadas, então vá lá. Ao soar da meia noite, a moça sai em desabalada carreira (adoro essa expressão) e deixa um pé do sapato de cristal na escadaria. Chega em casa desmontada, mas o sapatinho sobrevive (!). O príncipe, então, manda buscar a amada pelo reino e pelos reinos vizinhos. Aquela em quem o sapato servisse, seria a noiva escolhida. Os arautos encontram cinderela, ela se casa com o príncipe e perdoa a madrasta e as irmãs.

Esse mito é recorrente no cinema roliudiano. Uma Linda Mulher (Pretty Woman), Vem Dançar Comigo (Strictly Ballroom), O Despertar de Rita (Educating Rita), My Fair Lady são exemplos de variações sobre o mesmo tema. Moça pobre e feia fica bonita e se casa com galã. Várias coisas me incomodam nesse tema. Primeiro, assim como nos outros dois filmes, o casamento é tido como a única saída para a mulher ser feliz. É a manutenção de um esquema de vida estabelecido no patriarcado e inculcado nas crianças. A menina frágil que será resgatada pelo homem forte, que a protegerá e a sustentará. Em troca, ela será obediente e trabalhará nos afazeres domésticos, cuidando de filhos e do marido.

Esse esquema começou a ser quebrado na segunda metade do séc. XX, mas ainda está muito arraigado no nosso modo de organizar a sociedade. Hoje já vemos homens passeando com os filhos, cuidando dos filhos na rua, e isso não causa mais estranheza. Isso é novo. Mesmo homens da minha geração ainda tinham como padrão de comportamento o “ajudar” nas tarefas domésticas. E o cara que lavasse um copo depois do jantar se tinha por herói da parada.

Mas esse padrão novecentista fica muito arraigado na nossa mente. Embora já haja pensamentos discordantes, novos arranjos familiares aceitos socialmente e até mesmo estar sozinho e solteiro não é mais um peso social, isso ainda não está totalmente tranqüilo.

Em segundo lugar, a necessidade de uma ajuda mágica, uma solução sobrenatural para um problema terreno. A moça é incapaz de resolver por si só a situação de opressão e precisa de um auxílio da ordem do fantástico. O grito de liberdade, que deveria ser resultado da luta pessoal de Cinderela, só é possível porque a tal fada madrinha fez um sortilégio que a deixa irreconhecível e, por isso, consegue um bom casamento (aliás, um casamento principesco). Ou seja, além de não ser uma conquista própria, ainda vai deixá-la submetida a uma outra opressão, a do casamento.

Em terceiro lugar, e isso tem mais a ver com a lógica interna da narrativa do que com os aspectos sociológicos, por que diabos o tal sapatinho de cristal não sumiu à meia noite? Será que se a moça não tivesse fugido, todo o encanto ficaria no castelo? E se só ficou um pé, por que procurar calçar em todos os pés, ao invés de perguntar quem tinha o outro pé do par?

Há muito tempo venho falando sobre isso, mas só esboçando mesmo, sem estudar muito o tema, mas o drama, a ação teatral, surgiu na Grécia de Sólon não só como uma manifestação religiosa, mas como uma forma eficaz de ensino de dogmas e tabus. Nos estudos de dramaturgia, sempre que evocamos o início, somos colocados com a questão de que se escreve para teatro – televisão, cinema, enfim, todas as formas de artes cênicas – para provocar no público uma reação ao que os personagens passam na encenação. E essa reação ensina, porque emociona o espectador, afeta os sentidos e os sentimentos e os coloca a pensar em como reagiriam se o que é mostrado acontecesse de fato na própria vida.

Isso ensina de uma forma sutil e vai colocando os conceitos aceitáveis ou reprováveis em nosso inconsciente. Mas como não é uma aula, não parece que estamos apreendendo os comportamentos, as atitudes, os preconceitos. Assim que, ao valorizarmos demais, sem questionar, esses filmes com princesinhas da disney, achando que isso não terá conseqüências danosas para a vida adulta, estamos condenando as meninas a esperarem um príncipe salvador.

Podemos até ver as histórias tradicionais, mas sempre conversar sobre elas, questionar o que se passa na tela e perguntar à criança o que ela entendeu do que foi contado. Assim, ela vai adquirir senso crítico, vai lidar com essas questões de forma talvez mais amadurecida.

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