Pensamentos sobre a violência contra a mulher

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Nesta semana, assisti a várias reportagens e ouvi várias falas com relação ao combate à violência contra a mulher, em especial a violência doméstica. Várias coisas me vêm à mente. O assassinato de Ângela Diniz, na década de 70 e o velho e absurdo argumento de legítima defesa da honra; Maria da Penha, cujo sofrimento ajudou milhares de pessoas a se livrarem das agruras de um relacionamento abusivo; Luísa Nascimento Braga, esfaqueada há dois anos pelo namorado, cuja pena de 25 anos saiu ontem.

O que essas narrativas têm em comum? O fato de que o noticiário dá destaque à vítima, ao sofrimento dela, e pouco se fala das conseqüências para os abusadores e perpetradores desses crimes. Doca Street foi destaque ano passado, quando morreu aos 86 anos. Passou 15 deles encarcerado, depois de, por ciúmes, desferir quatro tiros na face de Ângela Diniz. O julgamento foi rumoroso. Eu tinha 10 anos de idade e morava em Goiânia, mas me lembro de cenas esparsas vistas na TV.

Este ano, um deputado do (não podia ser diferente) PSL ouviu Marco Antônio, ex marido de Maria da Penha e desferiu: “A versão de Marco Antônio é, no mínimo, intrigante”. Posa numa foto ao lado do crápula, ambos bastante pimpões, exibindo aquele meio sorriso canalha de quem é branco, heterossexual e se julga detentor de direitos divinos sobre os corpor alheios.

Por fim, ontem, dia 25/11/2021, Bruno Ferreira Correia foi condenado, como já disse, a 25 anos de prisão, por ter esfaqueado Luísa Nascimento Braga.

Os casos se multiplicam aos milhões, talvez bilhões, em torno do Planeta Terra e sempre o enfoque é a vítima. É óbvio que o cuidado com a vítima e o empoderamento feminino são imprescindíveis. Prover essas mulheres com assistência emocional e financeira, seus filhos, dar proteção judicial e policial, para que a violência não escale ao feminicídio são inquestionavelmente funções do Estado e da sociedade como um todo. Deixar de naturalizar a violência como coisa de homem, abolir o adágio imbecil de que em briga de marido e mulher ninguém mete a colher, são imperativos dos tempos modernos.

Mas pouco se fala de atacar, de fato, a raiz de todo esse problema: o sistema patriarcal e a doença emocional de alguns (muitos) homens que consideram a companheira/namorada/esposa uma propriedade, sobre a qual detém o poder de vida e morte. É imprescindível julgar e condenar os culpados desse tipo de crime, mas uma ação preventiva também se faz necessária.

Uma abordagem pedagógica capaz de quebrar esse ciclo violento, porque, afinal de contas, estamos no séc. XXI. Estes dois últimos anos foram terríveis, dificílimos de atravessar e os tempos de confinamento e teletrabalho parecem ter exacerbado a violência contra a mulher.

E ainda há quem diga, quando rola um episódio noticiado de violência doméstica, que a mulher não denunciou, não pediu socorro. Eu passei algum tempo auxiliando o escritório modelo da antiga UDF na cidade satélite do Gama, no Distrito Federal, bem no finalzinho do século passado. E as crônicas trágicas desse cotidiano se repetiam, e eu vou me abster de relatar o ciclo violência-perdão-violência-perdão, porque por demais conhecido. O fato, contudo, é que não é fácil para muitas dessas vítimas se libertarem dessa situação de opressão, seja por vergonha, medo do julgamento dos familiares, falta de empatia da sociedade como um todo e outras questões internas da vítima, impossíveis de acessar sem um acompanhamento psicanalítico eficiente.

Por outro lado, não se vê uma atitude eficaz e contundente de ensinar a esses abusadores que a atitude deles é simplesmente inaceitável. O ser humano, já aprendemos há séculos, não pode ser propriedade de outro ser humano. Nem mesmo voluntariamente. A terapia curadora deve também enfocar o abusador, o homem violento, aquele que se julga no direito de insultar, humilhar e ofender a pessoa que está ao seu lado, ensinando a ele que ela não é propriedade, não é objeto de uso, gozo e fruição, mas um ser igual a ele, sensível, inteligente e merecedora de respeito, amor e compreensão. Se não dá certo a relação, parta para outra, é do jogo.

Vou agora trazer dois poemas, um de Adelaide Ivánova, publicado no livro O Martelo, e outro de Mariana Imbelloni, disponível no site rede sina (www.redesina.com.br/joaoemaria/ )

A Sentença

Adelaide Ivánova

I
pesa o decreto atroz, o fim certeiro.
pesa a sentença igual do juiz iníquo.
pesa como bigorna em minhas costas:
_____um homem foi hoje absolvido.

se a justiça é cega, só o xampu é neutro:
quão pouca diferença na inocência
do homem e das hienas. deixem-me em paz!
_____antes encham-me de vinho

a taça, qu’inda que bem ruim me deixe
ébria, console-me a alcoólica amnésia
e olvide o que de fato é tal sentença:
_____a mulher é a culpada.

II
pese do fiel juiz igual sentença
em cada pobre homem, que não há motivo
para tanto. não fiz mal nenhum à mulher e
_____foi grande meu espanto

quando ela se ofendeu. exagerada, agora
reclama, fez denúncia e drama, mas na hora
nem se mexeu. culpa é dela: encheu à brava
_____a garbosa cara.

se a justiça é cega, só a topeira é sábia.
celebro abonançado o evidente indulto
pois sou apenas homem, não um monstro! leixai
_____à mulher o trauma.

João e Maria

Mariana Imbelloni

– João, onde você vai nessa pressa toda?

– Eu vou salvar Maria.

– Onde está Maria?

– Eu vou salvar Maria. Maria está presa.

– Quem prendeu Maria?

– Eu vou salvar Maria. Maria está presa. Prendeu-se a si.

– João, por que essa chave na sua mão?

– Eu vou salvar Maria. Maria está solta. Perdeu-se de mim.

– João, você prendeu Maria?

– Eu vou salvar Maria. Maria está louca. Fugiu de mim.

– João, por que esse sangue na sua mão?

– Eu vou salvar Maria. Maria está morta. Matou-se a si.

– João, você matou Maria?

– A bruxa matou Maria. Eu amo Maria.

– João, por que você matou Maria?

– A bruxa matou Maria. Maria era a bruxa.

– João, por que você calou Maria?

–  Marias não falam.

Obviamente não sou sociólogo, psicólogo ou jurista, mas apenas uma pessoa incomodada com o assunto, buscando reflexões e diálogo sobre isso. Aceito todas as críticas, desde que não passem pela ofensa pessoal, mas argumentem racionalmente sobre o tema.

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