O “X” da questão.

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Texto publicado hoje por Gamba Júnior no Facebook (https://www.facebook.com/gamba.junior)

Uma empresa fictícia tira dos seus rendimentos um valor de 306 mil reais para pagar os prolabores dos funcionários e do presidente da empresa. Ela tem 50 funcionários que estão na mesma categoria e um presidente. Cada empregado com vínculo empregatício custa para a empresa duas vezes o seu salário. Então, se pensarmos que “x” é o salário do empregado, ela gastará “2x” por cada funcionário. Para saber quanto ela pode pagar de salário, se o presidente ganhasse igual aos funcionários teríamos o seguinte cálculo 306 = 102x. Sendo assim, x = 3000. Cada funcionário ganharia 3000 de salário, incluindo o presidente. Porém, se o presidente quer ganhar mais, é só mexer na equação indicando quantas vezes o salário dos funcionários ele pretende ganhar. Se ele acha justo ganhar o dobro dos funcionários, a conta se torna 306 = 104. Nesse cálculo, X = 2,942. Cada funcionário receberia 2.942 e o presidente 5.884. Há pouca redução no salário do funcionário e o do presidente duplica! No entanto, se ainda for pouco e o presidente achar que deve ganhar não o dobro, mas 4 vezes o valor dos funcionários, a conta é 306 = 108, x= 2,833. Os funcionários ganhariam 2.833 e o presidente 11.332. Ou seja, pequenas alterações no salário dos funcionários podem gerar grandes aumentos no salário de um presidente. Por conta da proporção 50/1. Se o presidente ganhar 5 vezes mais – o que é a média de variação salarial de trabalhadores na Europa, teremos 306 = 110x, x= 2,781. Cada funcionário receberia 2.781 reais e o presidente 13.905. Se essa empresa ao invés de 50, tivesse 100 funcionários, se duplicasses o montante de pró-labore para 612 mil. As margens de diferenças ficariam maiores? 612 = 210x, x= 2,914. Cada funcionário ganharia 2,914 e o presidente 14.570. Quanto maior for a quantidade de funcionários nessa conta, maior a chance de aumentar o salário do presidente sem impactar tanto no dos trabalhadores. Obviamente, essa é uma condição hipotética pois em uma empresa os empregados têm diferentes cargos e salários entre si, além do presidente. Mas o exemplo é interessante mesmo quando houver vários salários. Podemos pensar o “x” como o salário mais baixo e os demais em relação a ele. O primeiro desnível seria 1.2 vezes x, o segundo 1.5 e assim por diante até chegar nas cinco vezes do presidente. O método é bom para se discutir diferença salarial. Em primeiro lugar, empresas com muitos funcionários conseguem grandes diferenças com menos impacto. No entanto, diferenças abissais vão sim impactar em explorar mão de obra com baixo salário – a conta não fecha se não for assim. Para além de empresas, podemos pensar o mesmo para uma cadeia produtiva. Se tem alguém ganhando muitos “x”s vai ter gente sendo explorada, pois o valor do x ficará muito pequeno. Países menos desiguais pensam e refletem sobre os patamares dessa diferença. Em reportagem com o link abaixo, um estudo mostra que o maior impacto para a mobilidade social não é a formação da população, mas a redução da desigualdade salarial. Na Dinamarca, por exemplo, um dos países menos desiguais, quem faz isso é a política pública. Através de impostos, taxa-se grandes rendas para que se convertam em valores para os menos favorecidos. Assim, se uma empresa decidir que o presidente vai ganhar 50 vezes o valor do funcionário, você pode imaginar como ficaria o “x” do funcionário. Neste caso, da Dinamarca, o próprio estado obrigaria que os impostos dessa faixa fossem tão mais altos e que revertessem para os salários abaixo de uma determinada faixa, re-equacionando os valores. Direitos trabalhistas, forças sindicais e políticas públicas tributárias socialmente implicadas são alguns dos mecanismos de políticas socialistas para essa menor desigualdade. Na ponta oposta, o neoliberalismo com a extinção dos direitos trabalhistas, desmonte dos sindicatos e estado mínimo favorece justo o oposto, a concentração de renda. Era natural, portanto, que todos fossem socialistas para viver em uma sociedade não só mais justa, mas com mais potencial de desenvolvimento e qualidade de vida. Ambos os aspectos não vêm da concentração de renda, mas pelo contrário, da igualdade. Porém, pensando em uma elite burra e idiotizada que só pensa no aumento do seu privilégio, ainda que isso implique em subdesenvolvimento, violência e redução da qualidade de vida, tudo bem que ela apoie o neoliberalismo na lógica de ampliar apenas seu patrimônio. No entanto, na base da pirâmide de renda, pelas contas acima, seria óbvio que os trabalhadores seriam mais ligados às políticas socialistas do que às neoliberais. No entanto, em países democráticos, para que essas políticas sejam implantadaa é preciso a maioria dos votos. Como a maioria esmagadora são de trabalhadores, só há duas chances de se implantar o neoliberalismo: ou com golpes de estado ou com muita manipulação cultural para inverter essa lógica e o trabalhador achar bom a desigualdade. Ou muitas vezes, as duas coisas juntas, golpes de estado e manipulação. O que vivemos hoje na América Latina é isso. O trabalhador foi convencido a não querer o direito trabalhista porque isso diminui seu salário, de não gostar de sindicato por que tem que pagar por ele e de querer um estado mínimo porque ele ganharia mais pagando menos impostos. Ou seja, uma mentira, levando em conta os dados demonstrados. A corrupção do estado, a fragilização dos direitos trabalhistas e a exploração decorrente disso, levam a uma deslegitimação do estado e do emprego. Liberalismo, empreendedorismo e investimentos, são alguns dos termos que vão emoldurar essa situação surreal. Volta e meia, a manipulação midiática não dá conta de manter tamanha falácia e sobem ao poder governos de esquerda. Aí, só mesmo um golpe de estado para realinhar as políticas de exploração. O que é bom para Escandinávia não é bom para nós. Ao invés de buscarmos politicamente a redução da desigualdade, buscamos de forma inútil ser parte do grupelho de privilegiados com muitos “x”s nos bolsos. No entanto, como o estudo mostra, mobilidade social só com muita igualdade. Achar que a desigualdade te levará a outra ponta da qual você não faz parte, é outro estelionato. Achar que alguém que ganha muitos “x”s em relação a outros cidadãos é uma coisa legal, desejável e é fruto de meritocracia não é só ignorância, mas falta de ética. “X” demais significa uma cadeia produtiva exploradora, apenas isso. Nunca pense no salário de uma celebridade descolado do de seu camareiro ou de seu segurança. A equação acima é uma lembrança moral de que não há milagres. A conta é simples, se tem alguém ganhando milhares de vezes o valor de outra na mesma cadeia de produção, não é sucesso, mas doença social.

Matéria:

https://pt.euronews.com/next/2018/06/12/as-desigualdades-salariais-na-europa?fbclid=IwAR3mbo4wMI4uI-h1hi3IoR_WicK9xb63pxs6rYNrHgO5zBSruu14g3W2rTs

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