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ARTE

Hoje foi dia de dar adeus a um dos grandes ícones do cancioneiro brasileiro. A grande Gal Costa, nos deixou.

gal costa virou estrela

Gal Costa

Transitou por este planeta desde 26 de setembro de 1945. A guerra na Europa tinha recém acabado, duas bombas haviam sido lançadas covardemente sobre cidades japonesas, inaugurando o pesadelo de uma hecatombe nuclear, alimentada por potências antagônicas.

Soteropolitana, viveu ainda no Rio de Janeiro e em São Paulo, onde veio a falecer. Teve uma vida discreta, diferente de sua persona pública. Mas as pernas à mostra na época da Tropicália, os figurinos extravagantes, a voz deslumbrante eram marcas registradas.

Eu, infelizmente, jamais pude ir a algum show da cantora. Quando ela vinha ao Centro-Oeste, os preços dos ingressos eram caríssimos e, quando me mudei para o Rio, ela se afastou dos palcos.

A Voz é a vida de Gal

Há discos da cantora que são profundamente marcantes, mas ainda me lembro de ouvir Avarandado. Um singelo solo de flauta dulcíssimo introduz uma orquestra um pouco mais portentosa, e a voz de Gal, ainda novinha, cantam aqueles versos tão bucólicos:

Avarando

“Cada palmeira da estrada
Tem uma moça recostada
Uma é minha namorada
E essa estrada vai dar no mar

Cada palma enluarada
Tem que estar quieta, parada
Qualquer canção, quase nada
Vai fazer o sol levantar,
Vai fazer o dia nascer

Namorando a madrugada
Eu e minha namorada
Vamos andando na estrada
Que vai dar no avarandado do amanhecer
No avarandado do amanhecer
No avarandado do amanhecer”

Salvo engano, é o primeiro registro da voz da divina Gal.

Gal e a revolução dos costumes

Decerto há cenas indelevelmente gravadas na minha mente. Ela cantando Brasil, de Cazuza, num show que não vi, dirigido por Gerald Thomas, mas que ficou marcado pelo figurino. Uma mulher já madura, com os peitos de fora. Foi um choque, mas eu amei.

Gal em 1973

Mas antes ela já era uma voz contundente contra o golpe militar dos anos 60/70/80.

Aliás, gravou diversas canções de Caetano Veloso. O grito de “É preciso estar atento e forte / Não temos tempo de temer a morte” nos assaltaram de volta nestes últimos anos da ascensão do fascismo e da extrema direita raivosa aqui no Brasil.

Minha voz, minha vida é um hino e uma homenagem à arte de cantar, Vaca Profana, um grito contra a caretice e, por fim, a que eu mais gosto, O Amor. Os versos de Maiakovski, traduzidos por Luiz Antônio Martinez Corrêa sempre me emocionam.

O Amor

“Talvez quem sabe um dia
Por uma alameda do zoológico
Ela também chegará

Ela que também amava os animais
Entrará sorridente assim como está
Na foto sobre a mesa

Ela é tão bonita
Ela é tão bonita que na certa
Eles a ressuscitarão

O século trinta vencerá
O coração destroçado já
Pelas mesquinharias

Agora vamos alcançar
Tudo o que não podemos amar na vida
Com o estrelar das noites inumeráveis

Ressuscita-me
Ainda que mais não seja
Por que sou poeta
E ansiava o futuro

Ressuscita-me
Lutando contra as misérias
Do cotidiano
Ressuscita-me por isso

Ressuscita-me
Quero acabar de viver o que me cabe
Minha vida
Para que não mais existam
Amores servis

Ressuscita-me
Para que ninguém mais tenha
De sacrificar-se
Por uma casa, um buraco

Ressuscita-me
Para que a partir de hoje
A partir de hoje
A família se transforme

E o pai seja pelo menos o universo
E a mãe seja no mínimo a Terra
A Terra
A Terra”

Um grito de liberdade e uma visão utópica da humanidade.

Retirei apenas estas canções do vastíssimo repertório da cantora apenas para ilustrar com as que mais gosto, mas há tantas, que poderíamos escrever um tratado sobre as contribuições de Gal à Música do Brasil.

Uma geração revolucionária e talentosa

Fico triste, mas me consolo em saber que cabe a todos nós a passagem final. Em contrapartida, sinto que a morte é um destino que cabe a todas as pessoas e a única certeza que temos. Sentiremos saudades, especialmente porque essa geração, que hoje faz 70, 80 anos, é uma geração tão revolucionária, tão única. Não há substitutos, não há continuidades. Gal se foi e a voz única, maviosa, felizmente continuará sendo ouvida nas diversas plataformas disponíveis.

Capa do Álbum Índia

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