Ontem fui assistir a uma deliciosa montagem de Cosi Fan Tutte na Casa das Artes de Laranjeiras. Primeiro, uma digressão: em 12 anos de Rio de Janeiro – indo para 13, já – eu jamais havia ido lá. Sei da história, da importância para as artes cênicas e tal, mas ainda não tinha rolado. Ontem fui. Jamais estudarei lá. É uma caralhada de escada. Não tenho mais joelho pra isso.

Isso dito, fui ver a tal montagem. Em cena, 6 cantores nos papeis principais e um coro ótimo com mais 8 ou 9 (não contei). A garota que fez a Despina ontem foi a que mais brilhou, na minha opinião. Além da voz excelente, soube manter a personagem mesmo cantando, o que eu acho um mistério. Don Alfonso foi transformado num dono de bordel, bem cheio de perversões e novidades sexuais, Guglielmo, Ferrando, Dorabella e Fiordiligi foram transformados em dois casais burgueses em busca de aventuras. Funcionou bem demais. Os cantores são excelentes, afinadíssimos, e o acompanhamento só por um piano não compromete o resultado final, porque afinal de contas, trata-se de uma conclusão de curso. As soluções cênicas e de luz são muito criativas e os figurinos, embora improvisados, ressaltam a originalidade da criação cênica.

A questão da interpretação para ópera é sempre uma surpresa. É dificílimo manter a verdade da cena, porque música, ritmo, letra, são muitos antinaturais do comportamento humano que compõem a ópera. Salvo engano, Stanislavski estava estudando exatamente a direção operística nos últimos anos de vida. Infelizmente não tenho acesso a informações se ele teria ou não escrito a respeito. Eu me lembro de ter visto a Janete Dornellas em Brasília fazendo um Bodas de Fígaro sensacional. Ela fez uma excelente Susana, mas ela já era, antes de estudar canto lírico na UnB, uma boa atriz. Uma hora dessas, se ela se dignar a responder a este pobre blogueiro, faço uma entrevista com ela sobre isso. O mais emocionante para mim, contudo, foi me lembrar do meu amigo querido Francisco Frias. Há um ano e pouco ele morreu, bem do jeito que ele queria, de repente, sem sofrimentos. Mas eu não pude me despedir dele, por isso, fico com aquela sensação ruim de ainda poder, eventualmente, me encontrar com ele.

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