LITERATURA

A República de Weimar

Terminada a guerra europeia de 1914 a 1918, a Alemanha instituiu o que ficou conhecido como A República de Weimar.

Este período está descrito em pormenores no livro de Lionel Richard: “A Vida Cotidiana – A República de Weimar”, publicado pela Companhia das Letras e distribuída pelo Círculo do Livro. A obra traz detalhes das vidas dos alemães durante o período e tenta explicar o surgimento do Nazismo. Por isso é tão importante a leitura dele nesta quadra da história.

A República de Weimar durou de 1919 a 1933, ou seja, há um século. E por que conhecer este período na contemporaneidade? Uma das respostas é: porque quem não conhece a história está fadado a repeti-la. A outra é: estamos mergulhando novamente numa onda de extrema direita autoritária que busca a neocolonização e o apagamento de povos não caucasianos. Estes dois perigos devem ser afastados.

Lionel Richard desenvolve a obra em 10 capítulos, nos quais vai descrevendo desde a Assembleia Constituinte da Alemanha, o que ocorreu na cidade de Weimar, passando pelo cotidiano dos cidadãos até a conclusão, com uma proposta de autópsia do regime. Em 1919, a Alemanha havia perdido uma guerra, talvez a mais sangrenta até então. O assassinato do arquiduque Francisco Fernando da Áustria, em Sarajevo, na Bósnia deu início ao conflito.

Entre as causas da guerra, incluem-se as políticas imperialistas estrangeiras das grandes potências da Europa, como os Impérios Alemão, Austro-Húngaro, Otomano, Russo e o Britânico. O fim desta guerra – que eu me recuso a chamar de mundial, eis que se desenvolveu totalmente em solo europeu e eles estão longe de ser o mundo, deixou a Alemanha de joelhos.

O País germânico perdeu muitos territórios, o Império estava devastado por dívidas impagáveis e haviam perdido muitos quilômetros quadrados de território. Este é o clima em que se encontrava o povo alemão naquele momento. O moral das tropas e da classe política estava devastado, como se vê hoje com o império estadunidense. Como se sabe, nenhum império morre sem lutar.

Antes do final do conflito, contudo, um fato abalou a história da humanidade: a revolução de outubro de 1917 na Rússia. Os bolcheviques tomaram o poder e iniciaram a primeira experiência de comunismo no Planeta. Este fato deve ter assombrado as elites econômicas e os burgueses do resto da Europa. Os acontecimentos são muitos e difíceis de se resumir em poucas linhas.

Surgimento de Milícias e grupos armamentistas então e agora

Alguns fatos, contudo, são importantes de serem destacados e comparados com a realidade contemporânea. Tomemos, por exemplo, o seguinte trecho: “Em todas as cidades, agrupamentos paramilitares de direita sobreviveram à dissolução dos corpos voluntários. Eles se mantiveram sob a aparência de associações chamadas patrióticas ou de antigos combatentes, de clubes de tiro e de sociedades de caçadores” (Richard – 1983, p. 122).

Impossível não notar a semelhança com o que aconteceu no Brasil de 2019 a 2022, com a ausência de controle efetivo e a liberação da venda de armas para Colecionadores, Atiradores e Caçadores. Além disso, a proliferação de clubes de tiro pelo País. Este fato sempre me leva à reflexão: as armas de fogo existem para que covardes matem outras pessoas, e só!

A ameaça do Comunismo

Ademais desses fatos, vemos que classificar os adversários como Comunistas, justificando a sua eliminação é também uma tática repetida hoje. Richard comenta na p. 130: “Até o instante final, em que todos entoam em coro, como que mergulhado numa hipnose coletiva o famoso hino em honra de Horst Wessel. Essa personagem, que não passava de um rufião, fora alçada à qualidade de herói nacional-socialista por ter sido mortalmente ferido, em janeiro de 1930, por um de seus colegas, evidentemente qualificado, nesta circunstância, de ‘comunista’”.

Sempre me pergunto quando ouço semelhante epíteto: a pessoa que pensa me ofender já leu alguma coisa de Marx? Entende o que é de fato o comunismo e que ele, embora tenha passado por um processo arbitrário nos primeiros anos de implantação na URSS, de fato busca libertar a classe trabalhadora da opressão? O que me vem à mente é a propaganda massiva da classe opressora, temerosa de perder privilégios.

Ciências humanas e reflexões ameaçam a ordem social vigente

Como hoje, matérias importantes para o desenvolvimento da justiça social são consideradas de esquerda (sinistro padrão). Lionel Richard relata na pág. 181: “Existiam diferenças entre as universidades, seguramente, bem como entre as disciplinas. A teologia protestante, o direito, os estudos de alemão eram geralmente considerados como de direita, enquanto a sociologia e a psicologia passavam por serem de esquerda. Heidelberg e Frankfurt tinham a reputação de universidades liberais, enquanto em Berlim, de acordo com rumores inteiramente fundados, dominava a direita mais conservadora”.

Este padrão se repete desde que o ensino médio revogou a obrigatoriedade de filosofia, sociologia e matérias quetais. Essas disciplinas, imprescindíveis à compreensão da sociedade e à reflexão da contemporaneidade, são tidas como perigosas pelos conservadores. Isto porque eles têm pavor de perder seus privilégios de opressores. Além disso, o racismo era uma característica notória da sociedade alemã (assim como toda a comunidade europeia, que se julga superior ainda hoje).

Os reflexos contemporâneos são patentes. A cada dia, vemos mais e mais insultos racistas sendo proferidos em lugares importantes, como campos de futebol e programas jornalísticos. Além disso, é fácil comprovar que a guerra às drogas não passa de um sistema de genocídio da população preta e periférica no Brasil, enquanto quem realmente lucra com o tráfico veste terno e trabalha em escritórios refrigerados em avenidas caras pelo País.

A glorificação da violência como regra

É também digna de comparação a constatação de que hoje estamos muito mais violentos contra as minorias. Richard, na pág. 183 nos alerta: “O responsável pelas ‘raposas’, como eram chamados os novos membros, escolhia numa outra ‘corporação’ o adversário com o qual seu calouro seria convidado a medir-se. Só os olhos eram protegidos; um dos combatentes saía quase inevitavelmente com uma cicatriz na face. Vencido, era a marca de sua coragem. Vencedor, a de sua bravura. De qualquer forma, nada melhor do que essa longa cicatriz para indicar claramente sua condição de membro da elite estudantil”.

Se então, isso se aplicava a escolas rivais, hoje vemos o crime organizado com o mesmo modelo de iniciação: a pessoa que deseja integrar uma facção deve provar sua coragem e obediência cega ao líder e, assim, enfrentar uma espécie de ordálio. Retomando um antigo adágio: “olho por olho e todos terminaremos cegos”.

Desprezo pelas classes operárias

Lionel ainda reflete sobre o incansável desprezo que os burgueses sentem pelas classes menos favorecidas economicamente, na pág. 195: “Não há nada de sedutor nessa banalidade pequeno-burguesa, mas nada tampouco de repelente. Uma miséria medíocre e decente. Para muitos operários, em contrapartida, os limites do suportável haviam sido ultrapassados. O prefeito de uma comuna da Turígia traça um quadro comovente da decadência a que os conduziam suas más condições de vida: ‘Eles estão amontoados em casas que caem em ruínas e cujo assoalho de madeira está tão carcomido que ameaça ceder sob o peso do armário. O teto deixa cair sobre as camas a caliça que se solta. Os ladrilhos da parede se fragmentam, os caibros do teto deixam entrar a chuva. No térreo, a água estagnada do pátio atravessa as paredes de adobe e espalha mofo por toda parte. Famílias inteiras, numerosas, dormem em quartos escuros e estreitos, onde os estoques de batatas para o inverno, amontoados sob os leitos, espalham um odor de terra, insípido. Pais e filhos, irmãos e irmãs, solteiros e casados dormem no mesmo quarto e, frequentemente, na mesma cama”.

A similaridade de tal situação com as favelas contemporâneas salta aos olhos. E é essa a situação da Alemanha durante o período que vai de 1919 a 1933. É fácil notar como essa situação serve de adubo e fermento para a guinada ao nazifascismo, numa sociedade tão humilhada.

Conclusão

É por isso que a leitura deste livro é tão essencial para a compreensão do mundo contemporâneo, guardadas as devidas proporções, por óbvio. Se, em princípios do Séc. XX, as comunicações eram difíceis e as notícias demoravam a chegar a todos os cantos do mundo, hoje temos uma sociedade hiperconectada. Tudo se sabe o tempo todo, desde os locais mais remotos até os grandes centros, os acontecimentos são conhecidos ao mesmo tempo em que acontecem.

Assim, nos damos conta de que o racismo, a xenofobia, o elitismo ainda estão presentes e são financiados por quem detém o poder econômico. Também sabemos que, estes são os verdadeiros donos do Poder e é contra eles que devemos lutar. O Brasil ainda tem de se haver com o neopentecostalismo e a teologia da dominação, que nos invadiu e continua a nos oprimir.

A luta contra as classes dominantes deve continuar e se tornar ainda mais aguerrida, para podermos sobreviver. Vemos que um novo conflito de dimensões planetárias se aproxima. Muito embora sempre tenha havido guerras pontuais, ao que assistimos hoje, com o declínio do império estadunidense e a queda do poder do dólar como moeda de troca, é que eles não desmoronarão sem antes causarem um estrago profundo nas estruturas atualmente vigentes.

Isto é bom? Não há como prever. Pode ser que o Sul Global se reerga mais forte e mais capaz de assumir a posição de liderança. Eu, por mim, gostaria de isolar os caucasianos e me vingar pelos cinco séculos de exploração. Contudo, não sei se esse sonho se concretizará. O futuro dirá e ele é incerto e cheio de controvérsias. E sempre lembrando o grande Brecht: “A besta do Fascismo está sempre no cio