Quem é de santo tem dois nascimentos: um quando saímos do útero materno e outro quando damos o Orukó do Orixá. No meu caso, a Dijina do Nkice. A festa de nome é, para mim, uma das mais lindas. Aqui no Rio de Janeiro é um pouco desprestigiada. Todo mundo dá mais valor a celebrar a quantidade de anos que a pessoa permaneceu no axé ou continuou na religião.
Escrevendo agora, percebi que na atualidade, é realmente muito importante completar 20, 30, 40, 50 anos de santo, porque para a cultura Yorubá, a longevidade é sinal de boa graça dos Orixás. Longevidade fértil, com muitos filhos, então, é a dádiva das dádivas. Eu não tive filhos, mas espero viver ainda por algum tempo. Por outro lado, ainda temos, atualmente, os ataques racistas dos neopentecostais fundamentalistas, minando nossa resistência, retirando dos terreiros, além dos fieis, a liberdade de existir. Ataques violentos, depredação, incêndios propositais e, principalmente, o enfrentamento aterrorizante são os meios dessa corrente dos evangélicos mal intencionados e falsos cristãos de tentar acabar com a nossa resiliência.
De toda sorte, a data do nome, ou da feitura de santo, a coroação do processo iniciatório, é celebrado anualmente, no ketu com o nome de Odum. A cerimônia tem várias partes e culmina com o Orixá/Nkice gritando seu nome para toda a assistência, usualmente formada por várias Mametus, Yalorixás, Tatas Nkissi e Babalorixás, Makotas, Tatas Kambuís, Ogãs, Ekedes, Kotas e Egbomys e leigos. Nesse momento, o santo indica que tudo foi feito corretamente e é o deus que habita aquele noviço que se manifesta. É um momento muito lindo para todos, porque acolhemos mais um membro da família.
Ontem foi o meu vigésimo terceiro aniversário de santo. Dia 17/07/1997. Este é o dia do meu Nkissi. Foi nesse dia que nosso elo foi finalmente forjado para sempre com insaba, ejé e efum. Eu sou servo de Kabila, ele me rege e me domina e eu me entrego a ele de mutuê no chão, coração aberto e coragem para seguir em frente. Essa forja foi aquecida pelo amor, pelo respeito e pela devoção de meu Tata Nkissi Inguessi de Nsumbo, minha querida Mametu Ibicy de Kissimbe, a Makota mais linda de todos os tempos, a pessoa que me apresentou a este universo fantástico e encantado da Nação Angola, Makota Lengi de Mikaya, minhas irmãs mais velhas, Kaicy e Cilemin, os Tatas Kambuí que assistiram ao Zelador durante a iniciação.
São 23 anos de devoção, são várias lembranças, memórias agradáveis e doloridas, mas, principalmente, fidelidade aos Jinkissi do meu Abassá, meu lugar de conforto e compreensão de mim mesmo. Não sou negro, mas tenho um profundo respeito pela cultura dos povos que para cá trouxeram saberes, cultura e esta maravilhosa religião.
Atualmente, estou voltado a compreender o racismo e me tornar cada dia mais antirracista. E isso tem tudo a ver com a minha iniciação 23 anos atrás.
Kiuá, Nkice Kabila! Okê Arô! Meu ori no chão para o deus da caça, da fartura e da família!

