Eu tenho uma amiga de muitos anos de conhecimento e estreitos laços fraternos. Consequentemente, as filhas dela são como se fossem minhas sobrinas. A mais nova, então, é o bebê – embora já tenha há muito passado dos 18 anos. Mas ela tem umas histórias fenomenais. A de que eu mais gosto é de quando ela tinha uns dois ou três anos. A Rede Globo passava a novela Vamp, com o Ney Latorraca e a Claudia Ohana. Era uma comédia de terror e a criançada adorava, especialmente ela – a caçula.

Pois bem, naquele tempo, foi uma visita daqui do Rio para Brasília, um zelador de santo amigo da minha amiga, que estava tratando dos dentes e por isso, faltavam-lhe os incisivos e os laterais superiores, evidenciando muito os caninos, obviamente. A menina jamais havia tido contato com alguém nessa situação e, criança tem dessas coisas, associou imediatamente o cara aos personagens da novela.

Entraram todos no carro, meu amigo com o zelador-de-santo nos bancos da frente e minha amiga com a filha atrás, a criança ainda naquelas cadeirinhas de segurança. Mas pela carinha dela, dava para ver que ela estava muito impressionada com a falta de dentes do estranho. Lá pelo meio do caminho ela cutucou a mãe e perguntou:

– É pipiro mamãe?

Minha amiga riu e disse que não era, não dando mais importância ao assunto.

O objetivo do passio de carro era, na verdade, levar o amigo carioca à estação rodoviária, de onde regressaria à cidade maravilhosa. Como ainda havia algum tempo de folga, foram a um bar/restaurante do Parque da Cidade (que já se chamou Sara Kubistchek, Ana Lídia, Rogério Pithon Farias, mas a gente continua conhecendo como Parque da Cidade). Lá chegando, novamente a minha amiga acomodou-se próxima da filha, o marido e o amigo ficaram na outra ponta da mesa. A criança, como era de se esperar, não tirava os olhos do homem estranho. Estranho, não porque negro, mas porque desdentado.

Conversa vai, conversa vem, bem num daqueles momentos em que a conversa da mesa, animada que estava, dá uma desmaiada, a menina não resiste e cutuca novamente a mãe, aponta o zelador-de-santo etasca:

– Ele morde?

Gente, mas aquela criatura deu um salto da mesa e gritou com a minha amiga que ela não educava a filha, e tal e coisa. Mas isso tudo porque ele não tinha ouvido a primeira parte da história.

De todo modo, isso entrou para o folcklore familiar.

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