Ontem foi um dia peculiar. Muita coisa pra resolver no trabalho, estresse, correria maior que o normal. Enfim, consegui driblar todos os pequenos entreveros que apareceram e sair a tempo de ver uma peça ótima. Foi a penúltima apresentação da temporada de “Carta a Um Jovem Ator”.

O espetáculo autobiográfico, escrito e encenado por João Vithor Oliveira e Tiago Herz, ficou em cartaz no charmosíssimo teatro Maria Clara Machado, no Planetário da Gávea. Sou amigo do Tiago há muitos anos e acompanho o crescimento artístico desse grande talento do teatro carioca. Embora talvez esteja no sangue, no DNA dele, a função teatral, ele é talentoso, aplicado e muito criativo. Foi assistente do pai, Daniel Herz, em alguns espetáculos e parece ter aprendido muito bem o ofício.

O ator é ótimo. Tem presença, um jogo corporal excelente e passeia pelo texto com maestria. É muito bom ver um ator dizer o próprio texto, porque as palavras são realmente dele. Ele soube fazer arte a partir da dor da perda de um ente querido. Esta alquimia é imprescindível para a sobrevivência do ser humano na terra.

Mas ao lado dessa notícia boa, temos tanta coisa ruim acontecendo. A peça Caranguejo Overdrive foi proibida de participar de uma mostra no Centro Cultural do Banco do Brasil; a Caixa Econômica vetou a apresentação de Me Lembro de Você Todos os Dias e, por fim, o tal Alvim disse que vai entregar a direção do teatro Glauce Rocha a um grupo de teatro neopentecostal. Essas três notícias me assombraram muito. O cerco da censura está se apertando.

Fico pensando se foi assim no início da década de 1960. Pequenos absurdos perpetrados e silêncio de quem deveria se manifestar. Não que estejamos em silêncio, mas nosso grito não encontra eco na população. Quando dizemos que não queremos mais a censura, uma parcela grande, principalmente da classe média, diz que não quer ver tais espetáculos representados mesmo. Ora, basta não ir ao teatro. Basta desligar a TV, não ir ao cinema para não ver o que não quer.

Mas não. Essas pessoas querem ainda que ninguém mais veja o que elas não querem ver. É o início da distopia.

Estamos caminhado a passos largos para um abismo.

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