Exceto por respirar, sentir, comer e chorar, todo o resto aprendemos. Imitação, acompanhamento, lições, saberes compartilhados. Se hoje você consegue juntar esses símbolos tão abstratos em sílabas e depois palavras e frases que fazem sentido, narram uma história, descrevem uma paisagem, traduzem o natural na linguagem, você deve isso a alguém. Suas refeições, sua casa, o computador ou celular em que você acessa este blog, tudo isso é crédito de uma classe de pessoas muito especial: os professores.

Quem ensina tem uma missão quase sagrada, a de compartilhar os aprendizados, e isso é uma coisa enorme. Não interessa se é química quântica ou bê-a-bá, ensinar e aprender são atividades que se revestem de uma aura de magia, de encantamento. Todo mundo gosta de aprender, isso nem é novidade, mas por que a evasão escolar e o baixo desempenho geral das escolas no Brasil?

Darcy Ribeiro (1922-1997) já dizia que a crise educacional no Brasil não é uma crise, mas um projeto. Vários argumentos apontam nessa direção. A primeira legislação educacional do Brasil é de 1827, e é um decreto de d. Pedro I. Nele estão as fundações das primeiras escolas. Mas é interessante perceber que esse decreto determinava que a educação elementar (ler, escrever, as 4 operações aritméticas e noções de geometria) era privilégio de meninos; às meninas, destinava-se o aprendizado de “prendas domésticas” (costurar, bordar, cozinhar, etc). Aliás, é em homenagem a esse decreto que até hoje se comemora o dia do professor.

Mas para além dessa crítica, o decreto imperial teve um mérito esplêndido, porque interiorização das escolas de primeiras letras. Sabemos o quanto a educação, antes da revolução industrial, era um assunto apenas para os nobres. O analfabetismo grassava na população. Saber ler era quase tido como bruxaria, até o fim da idade média, para os ocidentais.

De toda sorte, a escola foi se desenvolvendo, e chegamos à Lei nº 4.024, de 1961. Já no art. 1º, se percebe a vocação libertária dessa Lei, porque diz que a educação nacional será inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tendo por finalidade a compreensão de direitos e deveres dos diversos grupos que compõem a comunidade; respeito à dignidade e liberdades fundamentais; fortalecimento da unidade nacional e da solidariedade internacional; desenvolvimento integral da personalidade humana e a participação na obra do bem comum; preparo do indivíduo e capacitação científica e tecnológica; expansão cultural e, por fim, “a condenação a qualquer tratamento desigual por motivo de convicção filosófica, política ou religiosa, bem como a quaisquer preconceitos de classe ou de raça”.

Já ouvi críticas a essa legislação, mas, sem sombra de dúvidas, já era um avanço enorme haver uma lei que cuidasse da educação. Elitista, privilegiadora do ensino privado, etc, mas era uma lei. Em seguida, houve duas alterações durante o regime militar, uma em 1968 e outra em 1971. Nem é preciso comentar. Tudo o que se refere a esse período tenebroso da política só serviu para gerar muito mais atraso no País.

Mas temos sempre de ter em mente que, até a segunda metade do séc. passado, ainda havia uma espécie de barreira para as mulheres estudarem e até a política de cotas, os negros eram exceção no sistema de ensino superior. Essa realidade vinha mudando lenta, mas seguramente. Agora temos um revés, mas com certeza este desgoverno vai acabar logo e os avanços prosseguirão.

Eu comecei a estudar em 1969. Fui para o que se chamava, à época, Jardim de Infância. Um nome até bucólico. Embora tivesse apenas 4 anos de idade, algumas imagens da escolinha ainda estão gravadas na minha cabeça. Por incrível que pareça, eu me lembro do nome de um coleguinha, Afonso. Não tenho ideia da razão pela qual esse nome ficou gravado. Não sei se éramos amigos ou inimigos, se andávamos juntos, e o nome não está associado a um rosto, mas tenho absoluta certeza de que naquela sala havia um garoto chamado Afonso.

Dessa época também é minha primeira incursão teatral. Fiz Arcanjo Gabriel na cena da anunciação, no auto de Natal. Minha mãe conta que, na hora H, eu não quis usar as assas de isopor. Há uma foto minha, com a mãozinha posta à testa da menina que fez Maria, de camisolão de cetim cinza.

Em seguida, fiz o pré-primário no Grupo Escolar Nossa Senhora das Graças, onde minha querida mãe era professora. Fui aluno da tia Lélia. Provas mimeografadas, banheiro sujo e escola pública precarizada. Já era assim em 1970. Depois passei um ano no Instituto Lúcio (não sei que fim levou e, depois, fui para o Colégio Marista de Goiânia. Eu e minha irmã. Hoje eu sei o sacrifício que foi para os meus pais nos colocarem numa das escolas mais caras da cidade, mas na época, só achava meio chato a história de ter de ser sempre o primeiro da turma. O colégio tinha uma avaliação chamada Quadro de Honra. Todo bimestre eu tinha de levar o diplominha do quadro de honra pra casa. É muito justo.

As coisas mudaram e, em 1977, à altura do que era, à época, a sexta série do fundamental, nos mudamos para o interior de Goiás. Uma cidade chamada Jaraguá. Minha mãe nasceu lá e grande parte da família morava lá. Foi também nesse ano que a Maria Helena Romachelli, uma heroína da minha vida, fundou o Colégio Nossa Senhora de Montes Claros. Estudei lá até o segundo ano do segundo grau (à época, científico).

A experiência de uma escola do interior, com pouquíssimos alunos, foi excepcional. Maria Helena é uma daquelas mulheres admiráveis, empreendedoras e lutadoras pelo ensino e educação. Ainda estávamos em plena ditadura militar e ela entrava na sala e dizia: vocês têm de aprender a estudar, têm de questionar tudo. Jamais aceitem qualquer coisa como verdade, sem saber de onde vêm e para onde vão, quais são as bases da afirmação. Até a sexta série eu era um fracasso em matemática. Meu professor da quinta série, o famigerado Camargo, do Colégio Marista, era péssimo. Eu tinha sempre de ter aulas particulares no final do bimestre para conseguir nota. Mas com a Maria Helena, aprender matemática ficou fácil e divertido.

A escola era muito rígida e, além do currículo normal, tinha aulas de iniciação musical, ministradas pela minha tia Eneida, que depois também foi a professora de português de toda a minha vida, um espírito de renovação das crianças e tal e coisa. Esta é a visão romântica que trago da época da inocência, de um tempo em que eu estava imerso nessa realidade, sem perceber que o preço cobrado deveria ser alto demais para a maioria dos habitantes de Jaraguá, então estávamos somente os filhos dos mais endinheirados. Formávamos uma elite social e econômica. Éramos poucos.

Depois voltei para Goiânia e estudei em outro colégio de elite, o Pré-Médico. Até o segundo científico, por influência da Maria Helena, eu tinha certeza de que faria engenharia, mas nesse colégio me encontrei com o prof. Anivaldo, de história. Pense numa criatura iluminada. Até então, 1982, eu jamais havia estudado história. Nem gostava. Decorebas, datas, nomes, heróis. Anivaldo tinha uma metodologia toda diferente. Ele abordava um assunto e ia da pré-história à modernidade discutindo como as coisas funcionavam. Foi o meu primeiro contato com a metodologia dialético-materialista e minha mente ampliou tanto os horizontes, que decidi não fazer mais ciências exatas.

Mas de todo jeito, fiz vestibular para Engenharia Elétrica e passei. Foi um susto, porque eu fiz as piores provas que podia ter feito no vestibular. Não queria ser aprovado, queria mais um ano para convencer a família de que Engenharia não era meu mundo. Não adiantou. Passei e atravessei dois anos de verdadeiro tormento naquela faculdade. O Brasil do início da década de 1980 era uma efervescência política enorme. A ditadura militar dava sinais de fraqueza. Os partidos de esquerda haviam sido legalizados e a política estudantil voltara com força total. E eu preso naquela faculdade de gente bundona!

Saí, fiz jornalismo e depois direito. Deixei os bancos escolares, finalmente graduado em Direito, em 2001. A carreira acadêmica jamais foi meu forte. Mas ainda sou acompanhado por professores incríveis, dentre os quais destaco, novamente, Susanna Kruger, Thaís Mansano, Luís D’Mohr, Anja Bittencourt, Elza de Andrade, dentre outros, que vou parar de listar, sob pena de cometer alguma injustiça.

Sem eles, sem essas pessoas iluminadíssimas (minha mãe puxando a fila, porque foi alfabetizadora de várias gerações nas décadas de 1950 e 1960 em Jaraguá e depois em Goiânia), nada do que faço hoje seria possível e, por isso, minha singela homenagem ao dia dos professores.

2 respostas

  1. Adorei a tua jornada e a lembrança destes professores que te marcaram como ser humano. Citar os teus mestres é o maior reconhecimento que poderiam ter. Simplesmente gratificante!!

  2. Esse professor de história despertou o talento que já era seu: nunca vi alguém lembrar de fatos históricos como você! Adorei conhecer sua vida de estudante!!!

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