Hoje me peguei pensando nos tempos da redemocratização e da primeira eleição direta para presidente da república. O ano era 1989 e estávamos saindo de 25 anos de regime ditatorial civil/militar (sim, porque Sarney, embora civil, fora totalmente tutelado pelos milicos, tendo arrebatado a presidência do vencedor do pleito indireto de forma, digamos o mínimo, suspeita). O clima era de festa, porque tínhamos uma nova Constituição Federal, aprovada em outubro do ano anterior, ainda ouvíamos a voz tonitruante de Ulysses Guimarães com um livro nas mãos dizendo que jamais aceitaríamos novamente um regime ditatorial, que aquela era uma Constituição Cidadã.

De fato, comparada com as atrocidades perpetradas em 1969 pelos milicos, aquele texto era uma maravilha. Ainda tímido em medidas sociais, mas já trazia de volta as liberdades individuais, o Habeas Corpus, o Mandado de Segurança, uma lista enorme de direitos e garantias individuais e trabalhistas que faziam parte de uma série da artigos que não poderiam ser alterados por meio de emenda (chamavam de cláusula pétrea, mas assim como freios e contrapesos, era uma expressão da qual não gostava e continuo não gostando). E inovações importantes, tais como a elevação do Município a ente federativo, a distribuição de competências legislativas e administrativas mais descentralizadas, a extinção do Decreto-Lei, dentre várias outras.

No campo econômico, por outro lado, o País vivia a hiperinflação, derivada de um projeto isolacionista e segregacionista, voltado apenas para fazer “crescer o bolo”, sem qualquer compromisso com a divisão de rendas e a diminuição das desigualdades sociais. Mas para além disso, os planos econômicos dos milicos se pareciam demais com os projetos econômicos do tempo da Economia Planejada do stalinismo soviético.

O governo do Sarney tentou de diversas formas debelar a hiperinflação, mas só conseguiu aprofundar o problema. Não tínhamos economistas de fato preocupados com a estabilidade financeira, ou eram tão ineptos para o trabalho que só davam bola-fora. Todos os tiros erravam o alvo e a economia se degringolava assustadoramente.

Ao final do período Sarney, teríamos as primeiras eleições diretas. Eram candidatos, em ordem alfabética: Affonso de Camargo neto, Afif Domingos, Angônio dos Santos Pedreira, Armando Corrêa, Aureliano Chagas, Celso Brant, Enéas Carneiro, Eudes Oliveira Mattar, Fernando Collor, Fernando Gabeira, Leonel Brizola, Lívia Maria Pio, Luiz Inácio Lula da Silva, Manoel de Oliveira Horta, Mário Covas, Marronzinho, Paulo Gontijo, Paulo Maluf, Roberto Freire, Ronaldo Caiado, Ulysses Guimarães e Zamir José Teixeira.

Foi a primeira eleição em dois turnos, resultado da nova política pluripartidária. Durante os anos sessenta e setenta, havia apenas dois partidos: Arena e MDB – situação e oposição. As várias correntes da direita abrigadas na Arena e o centro-direita até a esquerda sob o guarda-chuva do MDB. Mas, como tudo nos anos sessenta e setenta no Brasil, era uma artificialidade brutal.

O ponto do qual me lembrei hoje foi uma discussão com uma grande amiga e um amigo, do qual perdi contato, mas ainda guardo a memória. Vou preservar os nomes, não porque viessem a ler o blog, coisa que não acredito que façam, mas para preservar a privacidade deles no meio dos meus 20 leitores. Essa amiga – até hoje uma das melhores que tenho, com a qual compartilho segredos e vivências importantes – era filiada ao Partido dos Trabalhadores e defendia o voto em Lula com unhas e dentes. Eu também votei nele, mas sem tanta convicção e, principalmente, sem tanto conhecimento quanto ela. O amigo era estudante de Economia na UnB e defendia o voto em Affif Domingos (inclusive o candidato em quem mamãe votou, sabe-se lá por quê). Na cabeça dele, do meu amigo, o Brasil precisava de um choque de liberalismo naquele momento. Eu e a minha amiga pensávamos que, ao contrário, tínhamos de implantar o socialismo.

Acho que estávamos todos enganados, porque quem venceu as eleições, no segundo turno, foi um candidato alinhado ao liberalismo econômico. O plano dele para debelar a hiperinflação foi tão ruim. Rapelou as contas bancárias de todo mundo – corre à boca pequena que avisaram à família Sarney e que o filho do bigodón retirou toda a grana da família da conta na véspera, mas isso é fofoca e não tenho comprovação nenhuma – liberou uma quantidade ínfima de dinheiro em circulação, pensando que, com isso, a economia se colocaria nos eixos. Chamou a rapina de empréstimo compulsório, a ser restituído daí a algum tempo. Fez isso sem avisar ninguém, de surpresa. À época eu trabalhava na Imprensa Nacional, bem no departamento que vendia diários oficiais no balcão e cuidava das assinaturas. Acho que foi a maior operação barata-voa que eu já presenciei. Ainda me lembro da cara do Joelmir Betting e da Lilian Vitte Fibe tentando compreender os textos das medidas provisórias que inauguraram o primeiro mandato eleito diretamente, depois de 25 anos nas sombras plúmbeas do verde oliva.

As medidas traziam uma reforma administrativa que colocava servidores estáveis em disponibilidade, recebendo só uma parte do salário, sem importar idade, tempo de serviço, apenas ao bel prazer de gestores ineptos instalados pelo novo regime, que alguns chamavam de Nova República, mas tinha o cheiro embolorado do escravismo e dos privilégios monárquicos.

O candidato da banca, vencedor naquele pleito, era tão inepto, tão equivocado, que governou só por 2 anos, tendo sido defenestrado pelo primeiro processo de impedimento de um presidente da república no Brasil. A ministra da economia da época está até hoje exilada nos EUAN e não se ouve falar mais nada da equipe formada por Kandir e Eris. Foi um tiro tão errado, tão mal dado, que ninguém mais quer ouvir falar deles.

Hoje eu fiquei me questionando sobre essas matérias do jornalismo econômico. Há uma parte da ciência econômica, bastante exata, dedicada a analisar o passado. Mas essa pouco interessa aos investidores e, principalmente, aos leitores. Embora eu ache que, talvez, seja a mais importante, para não repetirmos as patuscadas e burrices já feitas. A outra parte, na minha opinião, está muito mais próxima da Astrologia e demais oráculos. Um bando de jornalistas com formação econômica, dando palpites e projetando prováveis cenários para o futuro. Mas já devíamos ter aprendido que o futuro tem o péssimo hábito de nos passar rasteiras continuamente.

O choque de liberalismo veio, na forma de abertura de portos e da economia para o mundo, passamos a consumir mais produtos importados, a indústria nacional se ressentiu, mas logo percebeu a oportunidade de modernização. Mas a tragédia da inflação galopante continuava solta. O tiro saiu pela culatra.

Para vencer essa Hidra de Lerna, entrou em ação a equipe nomeada por Itamar Franco, capitaneada por André Lara Resende e, em 1994, tivemos finalmente um sossego econômico. O Plano Real foi, de fato, vitorioso por algum tempo, tão eficaz que FHC, que só fez assinar o decreto, foi eleito em primeiro turno nas eleições de 1994, vencendo todos os demais concorrentes.

As eleições de 1994, diferente das de 1989, não teve tantos candidatos folclóricos – não me sai da cabeça o Aureliano Chaves, num debate, com cara de cachorro que caiu de caminhão de mudança, questionando ao mediador: é pra perguntar ou pra responder? – e a disputa foi menos ideológica, mas trouxe uma novidade constitucional implantada logo a seguir, à custa de um forte mensalão: a possibilidade de reeleição dos cargos majoritários do Executivo.

Então… até aquele momento, o tal choque de liberalismo que meu amigo tanto acreditava, só teve por resultado o aprofundamento da miséria. O Brasil, um país continental, agricultura farta, recursos hídricos abundantes, indústria já em um patamar bom, e um IDH deprimente. Nos tempos de FHC, uma criança morria de fome a cada cinco minutos, no País da Abundância.

Da discussão mencionada, só me restou essa memória, mas, pensando para trás e revendo perfunctoriamente esses fatos, tenho cá pra mim que o liberalismo econômico é totalmente inoperante e incapaz de resolver os absurdos abismos de desigualdade fundante do Brasil. E isso porque nem pincelei na questão de raça, cor e gênero, para não apimentar, por enquanto a discussão. Mas é ainda um fator de piora na equação da distribuição da justiça econômica e da social.

Minha amiga, se ler e se reconhecer, me desculpe ter mencionado, mas acho que resguardei a identidade. Meu amigo já se perdeu de mim há muito tempo e duvido que acesse este texto.

2 respostas

  1. Olá, amigo!! Quanto tempo. Amei o que vc escreveu….É sempre bom termos novas referências e pontos de vista acerca de momentos históricos recentes tão importantes para compreendermos esse Brasil tão complexo e desigual….Feliz 2021 , meu velho amigo….grande abraço!!

    Adelmo Milani

    1. Olá, meu querido. que bom que você leu! Seja bem vindo! Estou morrendo de saudades e doido para trabalharmos juntos, para nos vermos mais! Abração.

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