Sofri duas grandes perdas recentemente. No dia 11 de março, minha querida mãe partiu. Tinha feito 87 anos em dezembro e a idade dela sempre foi a minha baliza para dizer que uma pessoa estava jovem para morrer. Foi uma perda dura, sempre é difícil perder uma pessoa que amamos, mas a mãe é pior. Eu a amava – amo, porque embora ela não esteja mais habitando o planeta Terra, o sentimento permanece – muito.

Já não vivíamos na mesma casa desde novembro de 1985, e eu pensava que ela se habituara à minha ausência. Quem parte, usualmente, sofre menos do que quem fica. Só tive noção do quanto ela ainda sentia minha falta em 2017, porque fui passar uns muitos dias na casa dela e ela me disse, na despedida:

– Eu acho tão bom quando você vem ficar muitos dias aqui. Não sou de conversar muito, mas gosto demais.

Ela me disse isso no carro, no momento em que eu saltava para ir para o aeroporto. Foi a despedida mais difícil da minha vida.

Ela foi uma mulher que sofreu muito. Gostava de festa, de se divertir, de viajar, mas foi criada por uma gente tacanha do interior de Goiás, repressora. Casou-se com meu pai aos 30 anos e ele também era um homem tacanho do interior de Goiás. Foram morar em Goiânia e lá fizeram a vida, tiveram eu e minha irmã mais nova. Ela pode ter sido um pouco feliz nos primeiros anos do casamento, mas depois essa relação virou um tormento. Meu pai era grosseiro, mal educado, arrogante, machista e misógino e, para piorar, hipocondríaco. Ou seja: ela saiu de uma família repressora para um casamento com um homem repressor.

Mas mesmo com essas limitações, ela conseguia tirar momentos de alegria. Ainda me lembro quando ela foi à Europa pela primeira vez. Uma excursão de um grupo da terceira idade no qual ela conhecia duas primas. Foi, se divertiu, passeou bastante e trouxe ótimas lembranças.

Aos 74 anos, resolveu se divorciar do meu pai. Para muitos era uma loucura. Ela ainda perguntou para mim o que eu achava. Minha resposta foi de que ela demorou demais para tomar essa decisão e que teria meu total apoio. Ela também era um pouco machista e procurava minha aprovação em quase tudo. Depois desse divórcio, a vida dela mudou radicalmente. Ficou mais solta e tenho certeza de que, mesmo com a saúde um pouco prejudicada, esses foram os melhores anos da vida dela.

A vida, no entanto, ainda traria um revés gravíssimo: ela perdeu os movimentos dos joelhos. Uma artrose gravíssima a afligia, causando dores horríveis e limitando o que ela mais gostava de fazer: caminhar, bater perna, andar pelos lugares. Ela já tinha tido um glaucoma que levou-lhe o olho esquerdo, uma catarata no direito, uma senilidade. Eu e minha irmã achamos que neste último ano, por conta da pandemia, ela se sentiu cansada demais e resolveu não prolongar mais o sofrimento. Não via sentido nisso.

No réveillon de 2019/2020, passamos juntos na casa de uma grande amiga. Ao soar meia noite, o espocar dos espumantes e os fogos de artifício ao longe, eu ouvi nitidamente uma voz dentro da minha cabeça:

– Aproveite. É o último que passarão juntos.

Não acreditei, mas fiquei cismado. O ano passou, essa horrível situação sanitária se instalou e, de fato, de 2020 para 2021, eu não fui passar as festas em família. Foi ruim, mas era mais seguro. Contudo, passado o ano, eu pensei que era uma loucura da minha cabeça pensar que não nos veríamos no final deste ano.

Até que em março – grande coincidência, porque meu pai também morreu em março – ela levou um tombo, sofreu um traumatismo craniano e nunca mais a verei neste plano. No dia 11/3 ela se foi para sempre. Eu estava levantando voo aqui no Rio de Janeiro para ir ficar com minha irmã porque mamãe estava numa UTI, às 8h, quando ela partiu. Não pude me despedir dela por conta da pandemia e a última vez que a vi pessoalmente foi em outubro de 2020. A dor da perda vai se amainando e se aquietando, mas a saudade só aumenta. Muitas vezes por dia eu penso nela e em coisas que queria dizer-lhe. Quando vejo alguma coisa engraçada, quero contar pra ela… Enfim… Vai ficando a saudade mesmo.

Pouco mais de um mês depois, foi o meu Tata ria Nkice. O caso dele foi a praga do século mesmo. Foi infectado pelo Corona Vírus e, como tinha diabetes e o coração comprometido, embora tivesse tomado a primeira dose da vacina, veio a falecer no dia 14/4.

A minha história com ele começou em 1992, mais ou menos. Eu era ateu, mas por considerar as religiões de matriz africana uma forma de resistência dos povos escravizados, sempre admirei e respeitei – de uma forma que não respeito o cristianismo oficializado – a umbanda. Desconhecia o candomblé e achava que era mais ou menos a mesma coisa. Naquela época, uma das minhas melhores amigas me levou para conhecer o terreiro dele, que ela estava freqüentando por causa da cunhada, recém iniciada.

Eu fui por curiosidade, achei bacana, mas era muito longe e tal. Voltei uma vez e, por ter umas coisas atrapalhadas na minha vida, resolvi me consultar com uma entidade, e esta me aconselhou umas oferendas. Fiz e a questão se resolveu. Voltei lá para agradecer ao Caboclo Verde da Mata e qual não foi a minha surpresa quando uma entidade me tomou, mesmo eu não acreditando. Segundo o dirigente – que viria a ser meu pai-de-santo – a minha mediunidade estava muito aflorada e as entidades haviam me levado à casa dele porque queriam trabalhar. Eu continuei não acreditando. Na segunda-feira, telefonei para o meu psicanalista e perguntei se eu era esquizofrênico. Ele me garantiu que não e meu racional se acalmou. Retomei a psicanálise e comecei a freqüentar o centro de umbanda Cosme e Damião.

O Candomblé estava fechado, de luto pelo passamento de meu avô de santo, Mirinho d’Oxum, a quem não tive a honra de conhecer, mas que agora, conhecendo a ancestralidade, respeito profundamente. Quando da reabertura do Candomblé, passado o luto, meu Tata me pediu para macerar umas ervas e eu me sentei com a Dilonga no colo. Foi como se eu chegasse de uma longa viagem e finalmente entrasse em casa. Não sei se já tiveram essa sensação, quando passamos mais de 20 dias fora de casa e voltamos a ela para encontrar tudo no lugar, as coisas familiares, enfim, o conforto do lar, pois foi o que senti naquele exato momento e ali eu fiquei. Foram quase 30 anos de convivência sadia. Ele foi meu guia espiritual, me iniciou nos mistérios do Candomblé de Angola e a gratidão será eterna.

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