Mais um retrato de uma guerra perdida.

O termo jacaré virou piada por causa do atropelo do sujeito ignóbil que se senta na cadeira principal da república. Nós, de esquerda, quando conseguimos nos vacinar, já dizemos que estamos nos tornando o réptil e rimos. Ontem, porém, o termo foi sinônimo de uma das operações mais letais de policiais civis contra pessoas que moram numa favela da Zona Norte do Rio de Janeiro.

Encravada entre Cachambi, Maria da Graça, Riachuelo, Rocha, Benfica, Manguinhos e Hgienópolis, a favela é uma das mais pobres da cidade, com índices de desenvolvimento humano semelhantes aos dos países mais atrasados economicamente e é o lar de quase 40 mil pessoas. Obviamente, traficantes e bandidos podem ser contados nos dedos das mãos. Dentre esses milhares de habitantes há trabalhadores, estudantes, pais e mães de família,  na maioria esmagadora pessoas honestas e que só querem viver. Mas a polícia entrou lá ontem e matou 25 pessoas.

Embora aleguem que essa operação estivesse há dez meses em gestação pela polícia, em busca de traficantes que aliciam menores para a prática de crimes, fica a impressão de uma vingança por conta da notícia abaixo:

https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2021/04/15/policial-militar-e-morto-na-linha-vermelha.ghtml

Na televisão, o delegado enfatizou que todos 25 mortos, alguns executados, eram bandidos, traficantes, pessoas perigosas. Ocorre que não é papel da polícia executar bandidos, traficantes etc. É sempre preciso lembrar que a alínea “a” do inc. XLVII do art. 5º da Constituição Federal proíbe a pena de morte, salvo em caso de guerra declarada (esta contra outro País, e não contra brasileiros ou residentes no Brasil) e por isso a fala do delegado é tão abjeta. Para serem considerados culpados, o mesmo artigo constitucional, no inciso LVII, exige o trânsito em julgado de sentença penal condenatória e não uma mera investigação policial. Isso porque para haver o famoso trânsito em julgado, o cidadão passou por um juiz natural, um tribunal colegiado, no mínimo. E, eventualmente, pelas instâncias superiores do STJ e do Supremo. Só depois de tudo isso, tendo sido condenado, o sujeito pode ser considerado culpado. Atente-se, novamente, que nem mesmo assim ele pode ser morto pelo Estado, quem dirá por uma operação policial.

As cenas que abriram o noticioso da rede Globo de ontem, logo às seis horas da manhã, foram dantescas. E durante todo o dia de ontem, jornais locais acompanharam os desdobramentos da operação policial.

Hoje houve um protesto em frente à Cidade da Polícia, uma construção que concentra órgãos policiais (eu ia escrever “de repressão”, mas AINDA não estamos numa ditadura), situada do outro lado da av. Dom Helder Câmara, bem próximo ao Jacarezinho. É importante protestar, mas dá uma sensação de desamparo. Na TV pareciam umas 20 pessoas. Velas e flores, cartazes, mas uma melancolia que não impulsiona a raiva criadora. Só o desconsolo.

O que mais dói nessa história toda é a falta de coordenação entre as três esferas de poder e entre os vários órgãos estaduais incumbidos de lidar com a segurança pública. Já está mais do que provado que as drogas, desculpa utilizada para a invasão, devem ser tratadas como questão de saúde pública e não de polícia, mas aqui, insiste-se nesse atraso de raciocínio. Depois da ascensão dessa direita raivosa, então, exacerbou-se. O Rivotril e o álcool estão liberados, mas a maconha e a cocaína, não. Hipocrisia é a palavra de ordem, porque, para além da liberação, há ainda a paleta de cores orientando a classificação de quem é pego comercializando entorpecentes. Quanto mais marrom, mais a imprensa e o inconsciente, impregnado de racismo estrutural, já considera suspeito ou chama de traficante; quanto mais cor-de-rosa, mais é um estudante, um empresário, que é pego comercializando drogas, como se esse fosse apenas um deslize de caráter e não o tráfico propriamente dito.

Isso é o que acontece no dia-a-dia da cidade grande. Mas tergiverso.

Importante é pensar nas vidas perdidas inutilmente ontem: mais de duas mil vitimadas pela COVID 19 e 25 no Jacarezinho. A pergunta que me faço sempre é se esse pesadelo terá fim.

Uma resposta

  1. Where do you study? buy research nolvadex
    The bigger problem is her lack of sharpness after an interrupted summer in which she was unable to run at full speed for five or six weeks. She only returned to competition last Tuesday when she competed in the javelin and long jump at a meeting in Loughborough.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.