Hoje é dia 29 de novembro de 2022. Semana passada, uma turma da elite, hospedada num caro hotel de Doha, atacaram Gilberto Gil, antes da estreia do Brasil na Copa.

Por conta disso, fui rever um dos discos mais marcantes da minha juventude. Gravado quando eu tinha 3 anos, fui conhecê-lo aos 17, em 1982, quando me juntei ao grupo de teatro dirigido por Odilon Camargo, na prefeitura de Goiânia. Foi uma fase muito louca da minha vida, por conta das descobertas da adolescência, da vida, de algumas drogas, enfim, o barato daquela época era muito diferente do barato de hoje.

A própria gíria “barato” é datada, todavia eu gosto muito dela, porque era usada para definir uma coisa que tivéssemos gostado muito. Uma das canções da época da tropicália, também de Gil, é Barato Total e dizia: “quando a gente está contente, tanto faz o quente, tanto faz o frio, tanto faz que eu me esqueça do meu compromisso com isso e aquilo que aconteceu dez minutos atrás. Dez minutos atrás de uma ideia já deu para uma teia de aranha crescer…” Muito bom.

Enfim, voltando: revisitei o Tropicália e, que delícia!

Transgressão e mau comportamento

Algumas canções são estranhas: Coração Materno, por exemplo, de Vicente Celestino, muito embora um melodrama raso, foi gravada por Caetano. Lindonéia, gravada por Nara Leão é um manifesto à dissonância, tão em moda naquele tempo.

O Melhor de tudo é que o disco todo tem arranjos sensacionais. Pena eu não tenho a ficha técnica, mas chutaria o Julio Medalha fazendo aqueles arranjos maravilhosos, tão cheios de dissonâncias incríveis, apimentam a música. Naquele tempo, havia dois movimentos importantes na MPB: a Jovem Guarda, que era uma baboseira dançante, seguindo os passos do tuíste estadunidense, e a Bossa Nova, surgida um pouco antes, fruto de uma burguesia da Zona Sul carioca, cujo maior mérito, na minha opinião, foi influenciar Caetano e Chico Buarque.

Talvez porque as canções fossem muito pasteurizadinhas, tudo muito bonitinho, arrumadinho, uns arranjos quadradinhos de jazz e umas letrinhas cheias de lirismo inócuo, a Bossa Nova me aborreça tanto.

A Tropicália, ao contrário, era transgressora, vigorosa, atacava os ouvidos acostumados ao bom-mocismo da bossa nova. Caetano e Gil foram exilados para Londres e coube à divina Gal Costa manter vivo o espírito.

A importância de Gil para o Brasil e o mundo

Depois disso, Gil, retornado do exílio, teve uma produção fonográfica profícua e genial, com sucessos incríveis: Refazenda, Punk da Periferia, Palco, Drão, A Paz, Domingo no Parque, Se Eu Quiser Falar com Deus, Extra, Refavela, são exemplos que me saltam da memória sem ter de pesquisar no google.

Gil não merece o ataque covarde só por ter se mantido do mesmo lado do espectro político desde sempre. É dele a frase de que a Cultura não pode servir apenas à Elite. Cultura é coisa comezinha, de todos os dias. E é assim que devemos encará-la.

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