LITERATURA

Zeitgeist – O espírito do tempo

Na virada do século XX para o XXI, o mundo se transformou: saímos do domínio do jornal impresso e da TV para a digitalização total da comunicação.

Ao longo deste ano, li alguns livros muito interessantes de história recente e contemporânea, com destaque para “Democracia Militante no Brasil”, do meu amigo pessoal, Dr. Ademar Borges Júnior; “O Mal Estar na Civilização”, de Sigmund Freud; “A Vida Cotidiana na República de Weimar”, de Lionel Richard. Agora estou atravessando o fascinante “Rumo à Estação Finlândia”, de Edmund Wilson.

O mundo, a partir da virada do Séc. XX para o Séc. XXI, sofreu uma transformação significativa, nos campos tecnológicos e de comunicação. Saímos de um tempo em que jornais impressos e televisionados eram as únicas fontes de informação para um mundo totalmente digitalizado. Deste modo, um fato que antes demorava dias ou meses para ser conhecido, hoje é instantaneamente informado à maioria dos habitantes da Terra.

Avanços tecnológicos versus desinformação crônica

Como todos os avanços, este tem lados positivos, mas também negativos. Antes, a informação demandava profundidade de leitura, hoje, somos bombardeados de conteúdos rasos, pequenos vídeos rápidos e superficiais. Somado a isto, temos uma insatisfação constante com a classe política, especialmente a brasileira, associada mais às páginas policiais que à solução de graves problemas estruturais. Estes necessitam de soluções eficazes. Mas são demasiadamente complexos e as abordagens superficiais e respostas rápidas são ineficazes.

O mundo acordou

Diante deste panorama, o fascismo voltou a assombrar o mundo e, até meses atrás, parecia inevitável. Muitos países europeus, os Estados Unidos da América do Norte, com a política instaurada por aquele presidente radioativo e mesmo o Brasil, tiveram uma onda grande de ressurgimento da intolerância racial, de gênero e de classe, o avanço de um patriotismo equivocado, dentre outras características de regimes autocráticos.

Enquanto lia “A Vida Cotidiana na República de Weimer”, responsável pelo surgimento do nazismo na Alemanha, várias comparações com a situação contemporânea me ocorreram. A frase de Berthold Brecht “a cadela do fascismo está sempre no cio” ecoava constantemente no meu pensamento. Parecia que reviveríamos os horrores perpetrados pelo Nazismo durante a guerra de 1939 a 1945.

Isto, porque eu percebia que o espírito do tempo (Zeitgeist) parecia o mesmo dos anos 20 do século passado. Um medo intenso ocupou a minha existência durante algum tempo, porque pensava na frase de Karl Marx: “a história se repete, primeiro como tragédia, depois como farsa”. Todavia, estas eleições que ocorreram no Brasil demonstraram que o conhecimento da história é fundamental para que ela não se repita.

A classe trabalhadora parece estar se conscientizando

Os movimentos progressistas ao redor do mundo tomaram consciência da iminente tragédia que se avizinhava. A eleição de Donald Trump nos EUAN, com a consequente implantação de políticas profundamente restritivas e uma estética nazista, assustou o planeta. Ele impôs uma política de eliminação das diferenças e massacre de minorias, excluiu direitos da comunidade LGBTQIAPN+, expulsou imigrantes e implantou uma política de verdadeiro terror, muito semelhante à de Adolf Hitler. Foi eleito com a promessa de parar de guerrear e baixar os preços de alimentos, mas não conseguiu nem uma coisa nem outra.

Com relação à guerra, foi coagido por outro ditador autocrata nazista, o Primeiro Ministro de Israel, Benjamin Netaniahu a entrar em conflito com o Irã. Este movimento estapafúrdio levou a um aumento considerável dos preços de bens de consumo no mercado interno estadunidense, o que desagradou profundamente a população local.

 A bem da verdade, a humanidade inteira jamais teve um período considerável de paz. Há conflitos eclodindo em diferentes partes do mundo o tempo todo. Eu imagino que a indústria bélica deva incentivar isto, porque é muito lucrativa, mas não tenho provas.

A criação do BRICS

Contudo, há 20 anos, apareceu uma aliança entre países emergentes: Brasil, Rússia, Índia e China. O analista Goldman Sachs, denominou em 2001 o conjunto de BRICS. Em 2006, o grupo se reuniu pela primeira vez na Assembleia Geral da ONU, em Nova Iorque (Fonte: Clique Aqui)

Hoje, de acordo com a mesma fonte, o grupo que passou a contar com a África do Sul em 2009, possui mais de 42% da população mundial, 30% do território do planeta, 23% do PIB global e 18% do comércio internacional. Esta aliança do Sul Global assustou as potências até então hegemônicas da Europa e os EUAN. Este último viu seu império ameaçado, pois os países começaram a comercializar utilizando as moedas locais, saindo da influência do Dólar.

Toda esta movimentação geopolítica foi como um terremoto nas relações internacionais. O império estadunidense viu seu poder de influência diminuir na região e isto feriu os brios deles. O Brasil tem, hoje, um comércio bilateral com a China muitas vezes maior do que sempre teve com aquele país.

O começo do fim do imperialismo estadunidense

Como sabemos, um império não cai sem lutas e sem muito sangue derramado de gente inocente. Com os EUAN, não seria diferente. Ameaças de sanções políticas e econômicas ameaçaram o Brasil, que seguiu altivo e enfrentou com soberania as sanções.

Aqui, preciso fazer uma digressão: O Brasil, de 2018 a 2022, sofreu com uma onda de ideologia neofascista, sob a presidência do inominável (recuso-me a mencionar o sobrenome daquela familícia). Com a vitória da classe trabalhadora no pleito de 2022, a turba se enfureceu e um golpe foi tentado. Felizmente, as instituições democráticas estavam muito fortalecidas e saímos ilesos do ataque. Tudo isto pode ser aprendido no livro já mencionado do dr. Ademar Borges.

Lula trouxe a esperança de volta ao mundo

Chegamos, afinal a 2026. O presidente Lula foi reeleito e o candidato derrotado foi se refugiar nos EUAN. Para obter esta vitória histórica, o Partido dos Trabalhadores teve de se reinventar na Ágora contemporânea: as redes sociais. Além disto, contou com o apoio de milhões de jovens e centenas de idosos, que foram às urnas e levaram Lula a um quarto mandato à frente do Poder Executivo.

Esta retomada é muito simbólica, porque ela está repercutindo no mundo todo. Ontem, nas eleições de meio de mandato nos EUAN, os democratas obtiveram ampla maioria nas casas legislativas e devem servir como barreira de contenção aos arroubos autocráticos do presidente Trump. Não que eu, pessoalmente, considere os democratas estadunidenses muito melhores que os republicanos. Ambos governam de acordo com o mercado financeiro de lá e os interesses locais.

Da impossibilidade de predizer o futuro

Todavia, os democratas apresentam um viés um pouco mais moderado. Voltando ao tema: percebo que o espírito do tempo está apontando para uma retomada das ideias progressistas. Edmund Wilson relata, em “Rumo à Estação Finlândia”, uma efervescência revolucionária em meados do séc. XIX. A vitória do PT, repercutindo no mundo todo, aponta para uma onde semelhante.

Aguardemos, contudo, porque é simplesmente impossível prever o futuro, mas dá para afirmar que o momento atual é de um refresco no crescimento do nazifascismo e dos supremacistas brancos ao redor do mundo.