É possível acreditar em alguém mais sem noção do que a minha amiga Polyanna? Pois bem, outro dia ouvi uma história de uma amiga que é pior que a Poly. Vou chamá-la de Ofélia, em homenagem ao personagem do Chico Anysio, muito embora a minha amiga Ofélia seja muito inteligente.

Pois bem. Ofélia é natural do Rio de Janeiro e morou com a mãe no mesmo prédio da Zona Norte, ali próximo ao Maracanã, até por volta dos 25 anos, quando casou-se e foi morar na Zona Oeste, há cerca de 10 anos. Muito embora morando lá, jamais deixou de visitar a mãe, até mesmo passar finais de semana lá e tal. A mãe de Ofélia sempre a ajudou muito e sempre deu muito apoio.

O marido de Ofélia é doentiamente ciumento. Pior que o Otelo da Polyanna, se é que vocês se lembram dele.

Nessas idas e vindas à casa da mãe, Ofélia já tinha visto um vizinho novo, com a esposa e duas filhas, mas jamais havia reparado nele efetivamente. Sabe aquela coisa de elevador? Você olha para o vizinho, cumprimenta polidamente, mas não passa disso. Eventualmente segura a porta…

Num final de semana desses bem ensolarados, encalorados mesmo do Rio de Janeiro, Ofélia foi à casa da mãe para usufruir da piscina do condomínio. Levou o filhinho e exibiu aos vizinhos maternos a incipiente barriguinha gestacional. Foi sem os óculos e sem as lentes. Embora eu sempre a avisasse que nós míopes temos de tomar muito cuidado o tempo todo, porque esse olhar perdido no horizonte, porque não está enxergando nada, pode ser confundido com uma encarada e levar a uma roubada daquelas.

Como estava fazendo um dia muito bonito, claro que a vizinhança foi toda curitir o programa de Ofélia e se refestelar ao sol, preguiçosamente, imagino. Mas havia, do outro lado da piscina, um grupo de três homens que nadaram para próximo de Ofélia, um de cada vez, sendo que o último foi o tal vizinho novato, casado e pai de duas meninas a quem já me referi. Ofélia não viu naquilo, obviamente, nada de mais, já que, isoladamente, o fato era realmente insignificante.

No dia seguinte, foi à casa da mãe novamente e, ao descer para ir embora, o tal fulano entrou no elevador junto com a nossa heroína, que o cumprimentou.

Nada demais, ainda. Mas no estacionamento, o tal fulando deu o bote: parou o carro dela quando ele estava numa posição bem incômoda, do tipo prendendo a saída da garagem, deixando-a naquele estado de urgência para desembaraçar o trânsito. Nesse momento, atacou:

– Posso falar com você?

Ao que ela respondeu: – Pode.

– Agora não. Mais tarde.

– Mas eu já vou pra casa.

– Então você pode me dar seu telefone?

– Posso. Mas eu não tenho papel, nem caneta aqui.

 

– Pega no carro.

 

– Ah, é. Eu devo ter na bolsa.

 

– Que horas posso te ligar?

 

– Durante o dia.

 

– Ok. Mas eu vou te ligar mesmo, tá?

 

– Tá.

Ofélia nem suspeitava do que se tratava. Foi-se embora para seu lar e, por volta de 22 horas, o telefone tocou e era o tal sujeito. A sorte é que o maridão estava em um evento institucional e nem percebeu. Ofélia atendeu ao telefone e perguntou o que ele queria numa hora daquelas. Ele respondeu que queria marcar em encontro com ela. Ela então disse:

– Não sei se você percebeu, mas eu estou grávida!

O cara então soltou:

– Não tem problema. Nunca namorei com uma mulher grávida!

Então ela explicou era bem casada e que tinha filhos e que estava feliz com a relação.

– Não tem problemas. Eu também sou casado e tenho filhos.

 

Ele continuou insistindo no encontro e só desligou quando ela disse que ia ligar para ele na quart-afeira, quando então voltaria na casa da mãe.

Ofélia ficou horrorizada ao desligar o telefone. Só então, só nesse momento, ela percebeu as intenções do sujeito – e por isso mereceu este post. Eu garanto que todos os leitores já haviam percebido, desde o momento em que o tal a abordou no estacionamento, a agenda por trás da “inocente” aproximação. Mas Ofélia só percebeu o perigo que corria depois da fatídica frase.

Ainda à noite, 5 minutos após deligar o delefone, a criatura mandou um torpedo dizendo assim:

– “Te quero na quarta. Mas te quero toda.”  E algo mais que ela não lembra.

Aí foi demais. Ofélia, que se recusava a achar que todos os homens do planeta só se aproximam das mulheres com intenções sexuais teve de sucumbir.

 

No dia seguinte de manhã, o sujeito ligou e insistiu para marcar o encontro e então ela deu-lhe um toco que mais se pareceu com um tronco de carvalho. Disse-lhe que jamais pensara em trair o marido, que a família dela era perfeita e que ele devia ser louco.

 

Mesmo assim, depois de uma semana o cara ligou. Ela estava em casa juntamente com o marido, Ela foi seca ao telefone, fingindo ser um engano e felizmente o tal cara desistiu e nunca mais ligou.

0 resposta

  1. O texto está ótimo!
    Dá até para adaptar a estória num roteiro ou numa peça à rodriguiana!
    Só achei um pouco obscura a parte da miopia…
    Mas, como flui bem! É derramada, corre bem!… Fiquei com inveja sadia, pois há uns dois anos não escrevo mais e agora há pouco craseei um numeral!… Puts, só me dei conta quando já não dava mais para consertar. Vai-se assim mesmo. rs
    Continue.

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