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LITERATURA

Nada mais chato que a contemporaneidade. Li hoje que a atriz Alessandra Negrini virou personagem de uma controvérsia por conta de uma fantasia de índia no pré-carnaval de São Paulo. Um dos meus grupos de Whatsapp desenvolveu uma discussão a respeito, que não participei, confesso. Pulei. Desde o ano passado, quando primeiro ouvi que algumas fantasias não podiam mais ser usadas durante o carnaval, estou tentando refletir e amadurecer sobre o tema. É muita rabugice para um tempo tão curto.

Eu sempre tive o carnaval como aqueles 4 dias de avesso. Herança do País da Cocanha, representação de quadros surrealistas, desde Bosch até Dalí, homem vestido de mulher, o rei de plebeu e o plebeu de nobre. São só quatro dias de realidade suspensa então o mau humor devia acompanhar também essa suspensão.

Diogo Schelp hoje no UOL, repercutindo a polêmica da Alessandra, menciona a brasilidade do carnaval. Claro que a festa não nasceu aqui. Como muitas, é a apropriação da Igreja Católica sobre os rituais pagãos. Faz tempo que perceberam que a proibição era a pior estratégia e por isso transformaram a festa de Mithra em Natal, os fogos do verão e festas para São João, São Pedro e Santo Antônio, transformaram Copacawana, uma das deusas andinas, em Nossa Senhora e a entronizaram numa praia brasileira – aliás, a mais famosa do mundo. Mas isso tudo não tira de nós a primazia de fazer o maior carnaval da terra. Veneza, com suas máscaras chiquérrimas, seu rigor elegante, também tem carnaval, mas a alegria europeia é discreta. Nada tem a ver com nossos trios elétricos e baterias de escola de samba, orquestras de frevo e maracatus, bailes e cortejos. Somos escandalosos, tropicais, antropofágicos e autofágicos e isso tudo reverbera em nossa festa.

Milhões de gringos vêm para cá para compartilhar dessa alegria temporária. Encantam-se com a festa, com os espetáculos dos dois maiores sambódromos (Rio e São Paulo), caem na folia com brasileiros e brasileiras de todas as cores e gêneros, embriagam-se e gastam os tubos em euro e dólar. Ou seja, o carnaval ainda é uma excelente fonte de renda para nós.

Então: desde o ano passado, não posso mais botar uma saia, um batom, uma peruca escalafobética e dizer que sou mulher nesses 4 dias, ou um cocar e homenagear os índios. As áreas são muito sensíveis. Aí acabamos vendo somente moças com flores na cabeça e rapazes com chapéus de marinheiro, pirata ou aquelas perucas de plástico. Estamos no extremo, acho. Temos de achar um meio termo para isso. Tanto a carolice dos conservadores, pregando abstinência sexual quanto a rabugice das esquerdas e do politicamente correto às avessas têm de ser moderados.

Afinal, carnaval é a inversão, é quando podemos liberar fantasias, gritar alegrias, ser devassos com menos julgamentos, beber até cair, enfim extravasar 361 dias de repressão. A festa se iniciou para dar vazão aos sentidos antes do início da quaresma, que hoje é apenas um momento de reflexão, mas há séculos, era um período de jejuns rigorosos e abstinências, que culminavam na semana santa, a festa mais importante da igreja cristã. Como hoje não seguimos mais as tradições rigorosas do cristianismo medieval, não faz sentido para nós uma festa que desafogue os sentidos, uma espécie de despedida dos prazeres, antes dos 40 dias de oração e preceito. Não damos mais a mínima para a quaresma e mesmo católicos fervorosos têm uma quaresma bastante amenizada.

Para mim, fica é a questão: até que ponto estamos satirizando, homenageando ou vilipendiando quando nos fantasiamos no carnaval?

Uma resposta

  1. Roberto da Matta tem um livro sobre isso, o Carnaval como festa da inversão, do contraditório. Segundo ele isso tem uma função social.
    Estamos perdendo dinheiro com essa caretice toda.

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