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LITERATURA

Tempos estranhos são estes para nós. Estávamos acostumados à rua, à vida mundana, à agitação de cinemas, teatros, lojas, compras, bares, boites, praia, lagoa, amigos, reuniões, festas, carros, motos, ônibus, metrô, trem, avião, aeroporto, rodoviária, estação de trem. De repente, tudo isso é uma ameaça direta à vida. Não metaforicamente, como a vida sempre guarda em si uma auto ameaça subliminar, mas real. Se nos concentrarmos, agruparmos, um vírus pode se espalhar exponencialmente. Não é letal como o Ebola, mas carrega em si a ameaça de uma morte horrível, buscando por ar.

Em meio a esse redemoinho, o Brasil é o que está em pior situação. Já vivíamos uma crise que se arrastava desde 2014. Foram seis anos de destruição sistemática da economia brasileira. Começou com a oposição ao governo de Dilma Rousseff. O PSDB não suportou a derrota tão apertada. Aécio prometeu, naquele momento, uma luta incansável para tornar o Brasil ingovernável. Na forma como a Constituição foi delineada em 1988, tendo o presidencialismo de coalizão – o que quer que isso signifique – como base, o Congresso Nacional tem o poder de inviabilizar qualquer projeto do Poder Executivo.

E isso foi o inferno da presidenta Dilma. Ela enfrentou como pôde. Eu mesmo não era muito fã do governo dela, mas compreendo que foram a situação e o diálogo com o Congresso (ou a falta dele) os principais fatores de sua catábase. E ela atravessou o inferno de cabeça erguida, digna e corajosa. Houve o impedimento e a direita entrou em histeria.

Em 2016, com o apeamento de Dilma da cadeira presidencial, assumiu seu vice, Michel Miguel Temer. Foi um período horrível. As promessas de melhora na economia, como se podia esperar, não se concretizaram. É o roteiro da Direita neste País desde o descobrimento: mais exploração da classe trabalhadora, empobrecimento, corrupção sistemática. E isso abriu caminho para o fascismo que já subjazia no inconsciente de 57 milhões de brasileiros.

Os preconceitos, a mediocridade, a ignorância, o fanatismo venceram. Às vezes parece que estou num pesadelo distópico, em que as pessoas dotadas de alguma lucidez são vilipendiadas. Para piorar tudo, o que já estava bem uma merda, veio a pandemia.

O ocupante da cadeira do Planalto vive falando que precisa salvar a economia, que isso é mais importante, que o sofrimento depois será muito maior e outras sandices. Outro dia, depois da demissão do ministro da saúde em meio a essa crise sanitária cujo precedente menos remoto data de 102 anos atrás, justificou tal ato por conta da preocupação de Mandetta exclusivamente com a vida humana. Eu tinha pensado que era mentira, porque nesses tempos, é muito difícil distinguir a realidade das invenções. Mas depois ouvi da própria boca do sujeito. Ou seja, ele, de fato, menospreza a vida. A morte é uma espécie de leitmotif deste governo.

Em meio a tudo isso, não podemos ir às ruas manifestar nossa insatisfação com o estado de coisas que se apresenta. Eles, os adversários, protegidos por suas armaduras de quatro rodas e vidro fumê, devidamente engalanados com bandeiras e faixas, desfilam para pedir a reabertura do comércio, afinados com o discurso do genocida mor de que é melhor todo mundo se contaminar e quem tiver de morrer, que morra mesmo (novamente o leitmotif )

Eu, particularmente, não sofro por estar isolado. Mas sofro muito pelo que está à minha volta, pelas mortes evitáveis, pelo desprezo com a vida.

Os tempos não podiam ser mais estranhos.

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