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LITERATURA

Sobre representatividade

Estou de férias. Tirei 12 dias para não pensar em trabalho oficial, porque não posso sair de casa, mas a rua não me está fazendo falta. Contando, são exatos 4 meses, uma vez que eu comecei o isolamento social no dia 17/3/2020. A diferença é que não tenho de ficar disponível virtualmente para consultas e conversas funcionais.

Mesmo assim, ontem meu chefe imediato me pediu para participar de uma videoconferência, porque o juiz substituto que atuará na vara em que trabalho foi nomeado e tomou posse e, por isso, queria conhecer todos os servidores. Maravilhas do mundo moderno.

Pois bem. Abri uma exceção ao meu período de férias e participei da reunião. Eu já conhecia o juiz, porque ele fora servidor da vara, mas deixou a equipe logo que eu comecei a trabalhar onde estou hoje. Eu sabia já que ele é negro e isso não era surpresa. Eu ando lendo muito sobre antirracismo e aprendendo meu lugar de fala e de posicionamento nesse novo contexto social em que estamos inseridos e, por conta disso, celebrei essa nomeação no grupo de whatsapp mais restrito, só de amigos.

Qual não foi a minha surpresa quando uma das colegas mais conscientes me recriminou, dizendo que eu não devia celebrar por isso e tal. É tão interiorizado o racismo, que a pessoa não consegue entender o antirracismo. Celebro e celebrarei sempre. Ele é um rapaz que estudou e passou num concurso para se tornar autoridade da república, um juiz federal. Não o conheço o suficiente para saber a história de vida, se é de classe média ou sofreu na pobreza, tampouco isso interessa. A minha amiga disse que veio de um ambiente de extrema pobreza e eu a respeito muito também, sei o que é a batalha para sair dessa situação. Mas para o povo negro deste país, até quem nasce economicamente mais favorecido sofre o tempo todo.

A minha amiga é loira de olhos azuis. Jamais na vida dela, por mais mal vestida que eventualmente pudesse estar, seria direcionada à entrada de serviço ou teria sido vigiada em cada corredor de loja de departamento ou supermercado. Já o juiz, garanto que passou por essa situação, mesmo hoje, de paletó e gravata. E eu não me surpreenderia se a nossa polícia o parasse e perguntasse de quem é o carro que ele conduz.

É isso que a minha amiga não entende. Temos de celebrar e propagar as conquistas das pessoas negras, para que mais pessoas negras se sintam representadas e inspiradas a seguirem esses passos, a estudarem, a saírem do estereótipo de raça. Temos uma imensa população negra e parda, mas em posições de comando, ainda são poucos. No Congresso Nacional, nas posições de executivo estadual e municipal menos ainda. Na atual presidência, NENHUM!

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