É notório que nosso idioma tem sofrido grandes transformações. E nem falo do acordo ortográfico, do qual revoguei conscientemente duas regras: voltei a usar o trema (meu querido trema) e o acento diferencial de pára. Falo da natural evolução de todos os idiomas, como a transformação semântica, simplificação de formas, vulgarização de ritmos, sotaques, neologismos, importação de termos. Tudo isso é muito natural em qualquer sociedade falante. Mas uma das referências tradicionais do uso da língua era o jornalismo. Quando pesquisamos publicações antigas, vemos que os jornalistas de antanho primavam pelo uso mais escorreito do vernáculo, beirando o pedantismo.

Os tempos foram mudando e, na década de 1990, houve uma regulamentação da profissão de jornalista, exigindo a formação de profissionais em nível superior. Eu cursei até o sétimo período de jornalismo no CEUB e acabei não me graduando. Achava o curso muito ruim e eu era uma pessoa pouco comprometida com objetivos de longo prazo. Mas aprendi algumas coisas e, dentre elas, o valor de um texto bem escrito para a compreensão da mensagem.

Aí veio a grande revolução informativa da contemporaneidade. O advento da internet deixou a escrita muito mais pobre. Escrever na correria, dar a notícia em cima da hora, em segundos, junto com o analfabetismo funcional, acabou por piorar a situação. Por isso encontramos cotidianamente situações como a que ocorreu hoje no site do UOL.

Na página inicial temos a seguinte manchete: “Dupla que agrediu médica no RJ é condenada a ajudar casal que a ajudou”. Condenada a ajudar? O que significa isso?

Quando abrimos a matéria, o título melhora um pouco: “RJ: Justiça condena dupla que agrediu médica a indenizar casal que a ajudou”. Mas mesmo assim, por que a indenização foi para o casal que ajudou a médica e não para a própria vítima?

Vamos para o texto: “O casal que agrediu a médica Ticyana Azambuja em maio deste ano, no Grajaú, zona norte do Rio de Janeiro, foi condenado para uma indenização R$ 12 mil ao casal de vizinhos Marco Antônio Guimarães Cardoso e Juliana Castro Martins, que tentou ajudar a médica na ocasião.

De acordo com a sentença de ontem do juiz do TJ-RJ (Tribunal de Justiça do Rio) André Ricardo de Franciscis Ramos, Rafael Henrique Del Iudice Ferreira terá que pagar R$ 10 mil a Marco Antônio, enquanto Ester Mendes de Araújo pagará R$ 2 mil para Juliana. Os agressores eram acusados de lesão corporal leve e ameaça.”

Não consegui compreender o que aconteceu no primeiro parágrafo. “O casal foi condenado para?” A regência do verbo condenar é “a” ou “em”. E o uso consagrou “a” para o caso acima. Depois falta o conectivo “de” em “uma indenização R$ 12 mil”.

É só a pressa ou é a ignorância no manejo do idioma. Essa ignorância é totalmente perdoável em compreensível em outras profissões, que não têm o Português como ferramenta de trabalho, mas no jornalismo, assim como no direito, isso é muito grave. São profissões que dependem da exata compreensão da mensagem para a consecução dos objetivos pretendidos e, por conseguinte, apesar de pequenos deslizes serem perdoáveis, erros crassos como o citado não podem passar sem forte crítica.

Foi feio, Andréia Martins. A matéria é assinada e eu sugiro que você gaste tempo lendo muito, lendo avidamente, lendo incansavelmente, muitos bons romances, tanto para dominar a semântica quanto para absorver as estruturas. Você vai ver como isso ajuda na formação do texto dentro do cérebro, antes de passá-lo aos dedos e à tela do computador.

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