Será que um dia vamos acordar desse pesadelo?

Eu tenho pensado muito, talvez um dos efeitos de ficar muito mais tempo sozinho, só com livros e filmes, conversando poucas vezes ao vivo e muito pelos aplicativos de comunicação. Como tudo na vida, isso tem vantagens e desvantagens.

Uma das maiores vantagens é compreender alguns processos meus – auxiliado pela psicanálise lacaniana, claro – de reações adversas a comportamentos irrelevantes. A maior desvantagem é enxergar essa situação que atravessamos como um sonho mau, um daqueles dos quais acordamos suando, arfando e com o coração aos pulos.

Desde as jornadas de 2013, quando movimentos de direita cooptaram o coração de todos, bradando contra a corrupção generalizada – estranho esse comportamento só ter surgido quando um governo de esquerda conseguiu fazer uma melhor distribuição de renda, longe da ideal, mas já caminhava a passos, lentos, porém decididos, rumo a uma justiça social.

Digo isso porque a corrupção está na fundação do Brasil. Na carta de Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal, o escrevinhador já pede um cargo para um sobrinho. Isso é a regra nas monarquias: aos amigos do rei, tudo, e é ele quem manda, legisla e julga, não havendo, portanto, limites ao seu poder. Desde então, a direita organizada manda nesta josta. Os governos um pouco mais de centro, ou com cores esquerdistas só foram aparecer na segunda metade do Séc. XX, com João Goulart, que propunha reformas estruturais de base.

A reforma agrária, que até hoje mal saiu do papel, é um dos pilares dessas reformas. Até hoje os capitães hereditários se consideram donos da terra. Dizimaram a população originária, trouxeram milhões de africanos para trabalhar em regime de escravidão e o reflexo disso é essa gente se achar dona, detentora dos privilégios ainda monárquicos ou nobiliários.

A proclamação da república em 1891 não trouxe para o povo a noção do que realmente é ser república. A extinção de privilégios e direitos políticos hereditários, a instituição de concurso para preenchimento de cargos públicos, um homem um voto, repartição das funções do poder de modo a propiciar o sistema de verificação e equilíbrio, tão importante para que uma função não sobrepuje a outra.

Ainda pensamos, enquanto nação, como uma monarquia, e todo mundo quer ser amigo do rei. O Império da Lei jamais funcionou aqui, porque a esmagadora maioria da população ou se acha acima dela, ou acha que cumpri-la é coisa de otário.

Essa função a direita conseguiu implementar com imenso sucesso. E os recursos públicos sempre foram desviados para bolsos particulares. Eu me lembro de uma anedota assim: o embaixador de uma potência europeia chega a uma republiqueta qualquer e, admirado com a extrema pobreza da população em contraste com a opulência e luxo do governante, pergunta como é que, nesse país, ele tinha conseguido tanta riqueza. O governante abre a janela do Palácio Presidencial, aponta para o vazio e pergunta: Está vendo aquela ponte? E aquele hospital público de última tecnologia? Está vendo aquela escola de ponta? O embaixador responde que nada vê, ao que o ditador fecha a janela e aponta para a sala à volta deles. Esta anedota reflete o que sempre aconteceu no Brasil – não é exclusividade nossa a corrupção, mas aqui é muito aguda.

Então, durante todo o Séc. XX, em que tentamos, sem sucesso, instaurar uma república, a direita mandou e roubou exageradamente. Ao conseguir ser eleito, o Partido dos Trabalhadores, em função da política real, teve de abrir conceções, nomear apaniguados para cargos públicos e se envolveu em sujeiras tanto quanto os demais partidos. A capilaridade da corrupção é dificílima de controlar.

De toda sorte, o Presidente Lula conseguiu façanhas incríveis, porque é um verdadeiro estadista. Ainda tem muita gente que tem ódio dele, porque não consegue compreender a revolução que foi o bolsa família para as mulheres nordestinas; a fundação de dezenas de universidades federais, interiorizando o ensino superior e, dessa forma, democratizando; os centros federais de educação tecnológica, com ensino técnico ainda mais democratizado e, mais do que tudo, a retirada do Brasil do mapa da fome.

Num país gigantesco e fértil como o nosso, até o ano 2000, uma criança morria a cada cinco minutos de fome ou desnutrição. UMA CRIANÇA MORRIA DE FOME A CADA CINCO MINUTOS. Qualquer liberalóide que argumente a falta de capacidade de trabalho desse povo vai tomar uma livrada na testa, com um volume de Formação Econômica do Brasil, do Florestan Fernandes, pra aprender que a nação é formada por uma elite rapace, gananciosa e cruel. Entre os anos de 2002 e 2013 o Brasil saiu desse infame mapa.

Não tiro aqui o mérito dos economistas que trabalharam no governo do Itamar Franco e conseguiram elaborar, finalmente, um plano econômico capaz de estancar a hiperinflação, implantado em 1994. FHC, o herói da direita, somente assinou o decreto. Os verdadeiros autores da façanha foram Pérsio Arida, André Lara Resende, Francisco Lopes, Gustavo Franco, Pedro Malan, Edmar Bacha e Winston Fritsch. Foi dessas cabeças que o Plano Real brotou. FHC surfou na onda e foi eleito em primeiro turno. Ao ser empossado já disse: esqueçam o que eu escrevi, num cinismo ímpar, porque aliado ao PFL da época (atualmente DEM), promoveu um desmonte do Estado com prejuízos incalculáveis e uma sangria de dinheiro público jamais vista.

Por que então, só em 2013 os arautos da honestidade e da lisura com o Erário saíram às ruas, não para exigir aperfeiçoamentos num governo que olhava para os menos favorecidos como jamais houvera acontecido antes, mas para acusá-lo de corrupção?

Eu tenho para mim que o nosso pesadelo atual começou aí. Não estou aqui isentando o PT de culpas e declarando a sua ilibada honestidade. Como disse acima, a política real nas terras de Pindorama custa muito caro.

Voltando aos trilhos: em 2013, por conta de um aumento de passagens de ônibus, diversas manifestações populares tomaram as ruas do Brasil. Diversas capitais se inundaram de jovens e pessoas indignadas, que bradavam: “Não é só pelos R$ 0,20!” Onde estava essa indignação à época em que a ditadura civil-militar matava e torturava as pessoas? Quando Sarney dilapidava a nação? Quando o PSDB fez a riqueza de bancos, em detrimento dos mais pobres?

Mas foi quando os mais pobres conseguiram chegar à universidade, viajar de avião e freqüentar aeroportos, comer todos os dias e não depender mais de esmolas e, principalmente, quando o salário mínimo conseguiu atingir um nível, ainda que distante do ideal, próximo aos duzentos dólares, é que foram para as ruas bradar contra a corrupção, essa palavra desgastada, mas que define uma prática constante em todas as sociedade, onde quer que haja dinheiro, lá estará a dita cuja.

Danuza Leão chegou a dizer que viajar para o exterior perdera a graça, já que àquela época todo mundo podia ir a Nova Iorque e ver um musical, denotando o caráter exclusivista e elitista da burguesia, replicada pelo atual ministro da economia, que recentemente, quando da disparada da moeda estadunidense, disparou que era bom, porque agora a farra das empregadas domésticas indo anualmente para a Disney acabaria.

Dá pra sentir o quanto essas frases repetem Carlota Joaquina? Dá para ouvir o eco do feudalismo e dos sistemas absolutistas? Eu pergunto para me certificar de que não estou delirando nessa viagem desejante de um sentimento republicano.

De lá para cá, entramos numa espiral descendente. Parece que estamos sendo sugados para um pântano sem fundo, um lugar escuro e pegajoso, cheio de maldade, crueldade, privilégio para poucos. A vitória de Dilma em 2014 foi um estopim para isso. O candidato adversário, inconformado com a derrota, avisou que tornaria o País ingovernável. A Constituição de 1988 permite isso, porque a divisão de competências legislativas, de funções e atribuições de cada Poder é muito claramente estabelecida. E foi o que fizeram. A crise deixou Dilma de mãos e pés amarrados para tomar decisões que defendessem o Brasil de uma imensa crise internacional. O resultado foi aquele impedimento esdrúxulo, apoiado na esfarrapada desculpa das pedaladas fiscais.

Tudo foi feito para retomar as rédeas pelos neoliberais. À época, o atual excrementíssimo era uma ameaça remota, mas eu já avisava aos amigos: ele não é um adversário desprezível, não levem na brincadeira… Envernizado por Guedes a banca comprou a ideia dessa falta de projeto. Uma facada estratégica colocou o candidato, então lá atrás nas pesquisas, com pouco tempo de propaganda obrigatória, na boca de todos os jornalistas. Era o impulso necessário a essa candidatura desidratada e fraca e ele chegou lá.

2019 foi um desastre imenso, mas 2020, com a pandemia, o absoluto despreparo da criatura se acentuou e deixou claro que ele é um inepto, adorador de Hades, sacerdote de Iku, necrófilo. Está delirando com os mais de 200 mil mortos, destruindo todas as conquistas sociais tão duramente conquistadas ao longo destas duas décadas.

Por isso eu penso que tudo isso é só um pesadelo. É muito distópico que haja ainda apoiadores cegos para tudo o que ele está destruindo, para o quanto ele vem nos matando. O ápice foi a recente situação manauara. Pessoas morrendo asfixiadas em corredores de hospital por falta de oxigênio!

Estarrecido, sem ar, com o coração palpitando e suando frio, não consigo despertar desse pesadelo.

2 respostas

  1. Só despertaremos desse pesadelo quando houver investimento em educação, que de certa forma o governo PT conseguiu. O Ciência sem Fronteira, por exemplo, levava alunos para universidades do exterior.

    E também quando o povo acordar

  2. Que texto preciso e precioso!
    Um resumo exato de fatos e dos sentimentos desencadeado por esses. Eu precisava por ordem, em meus sentimentos e recobrar a minha lucidez, e assim retornar a luta. Sigamos!

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