Hoje é dia de eu me orgulhar de quem eu sou. É tão estranho um pensamento como esses. Eu tenho de demonstrar para o mundo que eu tenho o direito de simplesmente existir, amar e gozar de forma livre.

Os tempos realmente estão muito mudados. Me recordo ainda da primeira vez que a referência à homossexualidade masculina surgiu na minha vida. A imagem é clara, mas a situação não muito, porque eu era muito criança, mas recebemos a visita de um rapaz que vestia uma calça jeans meio pintada, com a barra cortada e penduradas na barra, penas coloridas. Uma tia que vivia conosco comentou que ele era “coluna do meio”, uma referência ao jogo da loteria esportiva, para quando dois times empatavam.

Mais tarde, já vivendo em Jaraguá, o Brás abriu uma butique em frente à casa dos meus tios. Eu me lembro pouquíssimo dele, mas ele devia ter bom gosto. Abriu a loja numa sala da casa da mãe, pegou uma daquelas banheiras de ferro antigas, cortou uma borda e fez um sofá estilosíssimo, colocou na porta e era onde conversava com as freguesas. Me lembro dele vestido com um enorme caften preto. Eu já devia aí ter uns 10 anos.

Ambos foram motivo de chacota. Além da chacota, não eram figuras com as quais eu me identificava.

Depois, ou concomitantemente, a memória me trai, apareceu o conjunto Secos e Molhados. Era o desbunde total, o delírio. Aquele homem magríssimo, com peito peludo, máscara, figurino seminu e a voz agudíssima, cantando como um Deus e dançando como uma Deusa. Eu cortava jornal em tirinhas, prendia nos braços e nas pernas, vestia uma tanguinha, e saracoteava à beça ao som de “O Vira”, imagino que para o desespero terrível de papai, homofóbico de carteirinha.

Mas tirando a opressão familiar, a vida me foi até leve. Na adolescência, conheci o mundo gay e percebi que eu não era o único a sentir atração por homens, como imaginava até então. Foram poucos anos até passar num concurso público e me mudar de Goiânia para Brasília. O que foi uma libertação enorme. Comecei, então, a conversar com mais pessoas gays, ter uma roda, conversar abertamente. A epidemia de HIV estava grassando pelo planeta, matando gente adoidado, então, havia no ar um certo medo, mas a pulsão erótica é, em geral, mais forte que a pulsão de morte. Entre Eros e Tânatus estão sempre em combate e, por isso, continuávamos transando.

Eu, nem tanto. Embora tivesse um desejo pela devassidão, acho que meu talento estava em outro lugar. Eu sempre tive uma insegurança imensa com relação à minha aparência e só consegui namorar um homem seriamente aos 30 anos. Depois dele, fiquei casado por cinco anos e depois vim para o Rio de janeiro, onde tive outro casamento de 7 anos.

Casamento aqui não é a palavra no termo legal, mas em sentido lato, porque nem contrato de união estável firmamos, mas vivíamos na mesma casa e dividíamos todos os aspectos da vida.

No campo profissional, eu tinha passado num concurso público do antigo DASP (Departamento de Administração do Serviço Público) e fui nomeado para a Imprensa Nacional. Comecei a trabalhar lá em janeiro de 1986 e estive lá até 2003. Foram 17 anos muito prósperos, em que fiz grandes e eternos amigos e, durante todo esse tempo, não sofri com preconceito, no sentido de ser preterido para a ocupação de postos importantes.

Sempre houve piadas, sempre houve um ou outro comentário, mas de uma coisa eu e meus colegas gays e lésbicas da Imprensa Nacional não podemos reclamar, que é a LGBTQIA+fobia tenha sido institucional de alguma forma. Havia gays e lésbicas em posições de destaque, chefia, e, pelo menos no meu caso, um grande acolhimento dos amigos.

Em 2001 passei num concurso para a Justiça Federal e fui nomeado para o Tribunal Regional Federal da 1ª Região. Outra posição em que jamais sofri com homofobia institucionalizada.

Vou voltar um pouco na linha cronológica, porque um dos aspectos mais importantes da minha vida de viado é a mudança para Brasília. Apesar de ter representado uma grande alteração da condição de liberdade de viver, com o tempo e a análise, cheguei à conclusão de que, na verdade, eu me autoimpus uma sentença de exílio. Me parecia impossível conviver com a família e havia vários sinais de que a vergonha era uma tônica nas relações familiares.  Embora minha mãe não tivesse problemas de me amar da forma que sou, meu pai, ao contrário, jamais aceitaria minha condição.

Um dos aspectos importantes da vida da gente é a aceitação própria, é como nos enxergamos. Eu estava no interior, quando os primeiros desejos começaram a aparecer. No início eu não sabia muito bem do que se tratava, mas era católico fervoroso. Acreditei que o padre da cidade pudesse me aconselhar ou me ajudar. Como dizia minha saudosa amiga Dora Galesso: Ledo e Ivo engano. A única coisa que me fez foi me afastar da fé católica. Por volta desse tempo, comecei a perder a fé, porque eu jamais me aceitei como má pessoa. Achava que era um homem de Deus, que ele me amava. Então, o argumento eclesiástico da minha eterna danação em função desse desejo não me convencia. Quando comecei a estudar história, o cristianismo acabou por me enojar mais. Guerras, morticínio, opressões, violências. O episódio da inquisição, enfim… Durante esse período, me tornei ateu. Deixei mesmo de acreditar em Deus. Embora o pontapé tenha sido a sexualidade, a compreensão do catolicismo me encheu de horror a ele.

Mais tarde, comecei a questionar esses dogmas, em contraste com outras visões de mundo. Achava estranho a perspectiva de colocar o prazer como pecado, exaltando o sofrimento corpóreo e a mortificação dos desejos como virtudes, enquanto os prelados de tudo usufruíam, hipocritamente. Essa repressão toda das libidos sempre me pareceu profundamente antinatural. Até hoje. Fico pensando que, se esse Deus de fato tivesse criado o mundo, os seres humanos, que razão o levaria a oferecer o deleite da carne, tão agradável aos sentidos, para apenas proibi-lo?

E a homossexualidade, que se baseia em dogmas do levítico, no qual ainda se leem vários outros abolidos, mas a histeria do neopentecostalismo exacerba essa proibição.

Por outro lado, penso também no argumento de que a minha sexualidade teria a capacidade de diminuir a força do elo familiar. Como assim? O que eu faço entre 4 paredes vai atrapalhar a família de quem? Só se o cara que quiser transar comigo for casado, e mesmo assim, eu não tenho nada a ver com isso. Ele se casou porque foi fraco e não conseguiu enfrentar a barra que nós, assumidos, enfrentamos. Preferiu se esconder da própria sexualidade num casamento de fachada. E quem destrói a família dele é ele mesmo, e não eu.

Por isso hoje eu tenho orgulho, gosto de mim, gosto de sentir o que sinto e ser quem eu sou. Tenho um percurso intelectual e psicanalítico que me permite erguer a cabeça e enfrentar as discussões, mas isso não vale pra mais ninguém. É a minha história e cada um tem a sua. E eu só posso sentir esse orgulho, porque lá atrás, antes de 1970, um grupo de oprimidos resolveu se levantar e lutar contra a hipocrisia, a opressão e a falsidade para viverem as próprias vidas. Estamos sobre os ombros desses valentes guerreiros e hoje, na comemoração da revolta de Stonewall, todos nós, assumidos ou enrustidos, temos botar a cara na rua, a boca no trombone, e muito glitter, muito brilho, muita luz neon, muito close e lacração na cara desses caretas que ainda insistem em tentar abafar a nossa voz.

Não sei se não nos calarão, mas lutaremos com unhas afiadas e saltos agulha, coturnos e chicotes, brilho, inteligência, sagacidade e daremos trabalho.

Talvez evoluamos a ponto de não mais precisarmos dessa demonstração pública de força, e nosso afeto e nosso carinho será público, porque comum e aceito por todos, porque toda forma de amor vale a pena, porque amar é o que vai nos fazer transformar a humanidade em algo que possa ser respeitado.

3 respostas

  1. Cris, como eu tenho orgulho de você! Que texto comovente, sua história, que história sensível e forte.

  2. Você é lindo, sua coragem é linda, e eu me sinto privilegiada por ter te encontrado. Ai de quem mexer com você (s)!

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