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CINEMA

Hoje eu assisti ao péssimo Guerra do Amanhã. Um amontoado de clichês de filme, cujo roteiro uma amiga definia como “explode e corre”, em que um grupo de militares descobre uma fenda no tempo e busca soldados no nosso presente para lutar uma guerra 30 anos num futuro em que a Terra foi invadida por uma espécie alienígena que devora seres humanos, se reproduz assustadoramente rápido e só restaram meio milhão de seres humanos no planeta.

Lógico que a jornada do herói está toda ali, no roteiro mais escola McGee impossível, em que um homem branco e bonito (não a ponto de assustar as mulheres) é um cientista que foi soldado, tem uma relação ruim com o pai, que busca não imitar. Logo no começo do filme, numa cena para tentar cativar o público brasileiro, a final da Copa do Mundo do Catar, estranhamente disputada em dezembro de 2022, vá lá se saber porquê, os soldados do futuro invadem o campo e dão a notícia de que pessoas da atualidade serão transportadas para o futuro para lutar essa guerra.

Alerta: vou entregar tudo, porque eu vi o filme e acho que quase ninguém precisa passar por esse suplício, então vou contar a história toda.

O tal soldado cientista está decepcionado, porque queria um cargo de professor de ciências numa escola secundarista, mas a escola seleciona outro candidato, que tinha mais habilidades no campo civil. Ele, então, se senta no sofá para ver a final da copa, junto à filha e ali temos a primeira cena piegas, com a garota dizendo que o ama e quer ser a melhor pessoa. Este é o momento e o lugar que os soldados do futuro escolhem para aportar no nosso presente: o estádio do Catar onde a copa está sendo disputada – lógico, aí todo mundo estará ligado na televisão e o alcance será imediato.

Blablablá, o cara é convocado para ir ao futuro, lutar essa guerra desesperada. Chegando lá, dá de cara com a filha que ele deixou no presente, magoada com as atitudes dele, mas que é uma cientista completa. Ela descobre uma toxina capaz de matar os animais alienígenas que assolam a Terra e uma das frases mais simbólicas do filme é dita nesse momento: eles não têm organização política, dinheiro, nada. Têm fome e nós somos o alimento. Por isso é tão difícil vencer esse inimigo.

Oras, mocinha, o Anarquismo não é um inimigo tão poderoso assim.

Mas vá lá. O roteiro continua no explode e corre, e a menina, agora coronel do exército estadunidense, descobre uma toxina capaz de matar o tal bichão alienígena assustador. Ela manda o pai de volta para o presente, com um carregamento e a fórmula da parada, com o pedido de que, neste tempo, com os laboratórios à disposição, os humanos reproduzam a toxina em quantidade suficiente para infectar os alienígenas.

Mais uma cena piegas, da moça contando ao pai porque está magoada, que ele deixou a família, assim repetindo o padrão paterno blablablá.

Os alienígenas descobrem a base humana e o único portal e o destroem, mas o herói voltou ao presente com um frasco da toxina. Descobrem que os alienígenas não chegaram à terra no momento em que os camaradas do futuro imaginam, mas antes, e ficaram congelados numa caverna siberiana, aguardando por cerca de mil anos o degelo para eclodir da nave ovo/útero, que é encontrada, os alienígenas destruídos no presente e o mundo é salvo o herói reencontra o pai e o perdoa e, já sabendo que abandonará a família, promete que não o fará.

O filme deve ter tido um orçamento caro, embora nenhuma estrela roliudiana esteja presente no elenco. A filha do herói, quando fica adulta, tem uma cara de Paola Oliveira e trabalha tão bem quanto ela. O cara é canastrão, mas papel de herói estadunidense também é moleza, porque eles não sentem nem nada. Mas os efeitos são bons, a trilha sonora é daquelas de fazer susto, tudo no clichê mais perfeito.

E, no fim, o soldado estadunidense vence a guerra e salva o planeta. Eu contei o filme todo, tem spoiler, mas cada um deve ver e sentir por si mesmo. Os belicistas vão gostar.

Mas a reflexão que eu quero levantar, e que tenho pensado, mas sem contraponto argumentativo, é do quanto idolatramos a guerra. Estudamos história exaltando os generais, os reis, os cavaleiros, enfim, sempre os guerreiros.

Vemos, por exemplo, na antiguidade clássica, as guerras do Peloponeso e todas as conquistas romanas sobre os povos do mediterrâneo, chegando até a Bretanha e Gália. Depois, falamos da decadência desse império, dizendo que foram “invadidos” por vândalos, godos, visigodos, etc, quando talvez tenha sido porque o poder central, numa época em que as estradas eram péssimas e o tempo de marcha de Roma até Londinium, por exemplo, levava meses e, talvez por isso, a opção dos romanos tenha sido deixar governantes locais nas províncias mais distantes.

Depois da queda do império romano, um período a que chamamos de idade das trevas, é pontilhado por pequenas batalhas por causa de terra, que era a única forma de riqueza. Mais tarde, exaltamos falamos da colonização europeia em terras africanas e americanas, como se eles estivessem trazendo para cá a “civilização”, quando na verdade, estavam massacrando e escravizando civilizações aqui existentes. Os grandes reinos africanos e americanos acabaram sendo apagados e varridos do planeta, para só serem restaurados em estudos de história mais recentemente, quando os véus do colonialismo se levantam.

Depois, temos Napoleão, Wellington, enfim, não sou lá um grande conhecedor de história para falar especificamente de todos os guerreiros, mas o que pontua os livros de história adotados nas escolas primárias e secundárias é sempre esse, o aspecto bélico.

No séc. XX, tivemos duas guerras mais importantes, uma na primeira década e outra na terceira. Ao final delas, as fronteiras e a visão de humanidade jamais foram as mesmas. Já havia a fotografia e o cinema, então, nos relatos de heroísmo pudemos, finalmente, enxergar o sangue que jorrava dos jovens seres humanos de fato nos horrorizar. Mas não foi suficiente para aplacar a sede de sacrifícios exigidos por Marte.

Não há um período em que a humanidade não esteja assolada por guerras. Desde que me entendo por gente, há bombas explodindo em algum lugar do planeta, matando, destruindo, causando fome e desgraça à raça humana.

Além disso, nas guerras do período clássico, do medieval e até da modernidade, as figuras por quem se guerreava (capitães, reis e generais) iam na frente, estavam no campo. No Séc. XX, os velhos pau murcho que mandam na guerra o fazem de gabinetes ou bunkers refrigerados e os soldados se lascam no front, recebendo bala e bomba.

Será que uma mudança de enfoque e perspectiva na narração da história poderia alterar esse panorama? Será que glorificar mais gente como Ghandi e Mandela do que como Churchill e Eisenhower poderia trazer uma lufada de amor universal para a humanidade?

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