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LITERATURA

Mais um de Conceição para a conta

Terminei de ler anteontem o grande Insubmissas Lágrimas de Mulher, da Conceição Evaristo. A cada livro dela eu me convenço que ela, de fato, não merece ir para a Academia Brasileira de Letras.

Conceição Evaristo

O que outrora era um lugar de honra, a imortalidade alcançada pelo conjunto da obra, deu lugar curriola de gente medíocre. Zé Sarney, FHC, Merval Pereira, Edmar Bacha são integrantes do grupo. Os demais membros têm contribuições relevantes para a ABL, mas acho que Machado se revira onde está quando vê essas pessoas integrando a casa idealizada por ele, nos moldes da Academia francesa.

Bem, chega de mau humor.

Capa do Livro

Conceição nos transporta pelas histórias de Aramides Florença, Natalina Soledad, Shirley Paixão, Adelha Santana Limoeiro, Maria do rosário Imaculada dos Santos, Isaltina Campo Belo, Mary Benedita, Mirtes Aparecida da Luz, Líbia Moirã, Lia Gabriel, Rose Dusreis, Saura Benevides Amarantino e Regina Anastácia. São histórias fortes, de mulheres vitoriosas em suas batalhas particulares. Lutaram contra a opressão familiar, relações abusivas, obstáculos contra os próprios sonhos, enfim, incríveis histórias de mulheres contadas a Conceição, transmutados em contos deliciosos, não obstante pesados.

O conteúdo pesado de cada história é narrado com uma elegância difícil de ver na literatura brasileira. O trabalho de construção dos parágrafos lembra uma ourivesaria fina, porque nos tocam profundamente, mas não são difíceis de atravessar.

E ler este livro no momento em que duas vidas de pessoas negras foram tiradas tão barbaramente teve um impacto ainda maior. O assassinato brutal e perverso de Moïse por gente que tem certeza da impunidade é de deixar a indignação subir a níveis de extrapolação. As imagens reveladas pela mídia são muito revoltantes em todos os aspectos. A crueldade de quem praticou os atos, a indiferença dos policiais com o corpo do congolês deixado sem vida do lado do quiosque, a demora no socorro, tudo isso diz muito da sociedade doente em que nos tornamos. Segundo apurado, Moïse ia cobrar duas diárias trabalhadas do dono do quiosque Tropicália, na praia da Barra da Tijuca. R$ 200,00.

Moïse

Na mesma semana, Durval Teófilo Filho voltava para casa calmamente, na porta de casa enfia a mão na mochila para procurar a chave. É seu último gesto com vida. Ao seu lado estava o militar da marinha, sargento Aurélio Alves Bezerra. De dentro do carro, Aurélio simplesmente sacou a arma e atirou contra Durval, interrompendo a vida de um trabalhador, cuja filha o aguardava para ouvir histórias antes de dormir. Segundo os amigos da vítima, um homem agradável, de riso fácil. O que ia na cabeça de Aurélio para, de dentro do carro, desferir disparos contra um homem desarmado? Durval estava na frente do portão de sua própria casa.

Durval Teófilo Filho

Há uma repercussão das histórias de Moïse e Durval nas páginas de Conceição. Uma coisa é comum a todas elas, a cor da pele. São pessoas negras, um imigrante e um trabalhador, cujas vidas foram ceifadas pelo racismo estrutural, um peso incrível que o Brasil carrega e do qual não consegue se livrar, por mais que tente.

Ainda nesta semana, nos deparamos com atos nazistas, um deles num podcast e o outro numa rede de televisão. Isso vem acompanhado de uma discussão, demissões de quem exprimiu a defesa da existência do partido nazista, mas essas mesmas pessoas só foram demitidas e passaram por um pequeno enxovalho nas redes por conta da repercussão negativa provocada pelo holocausto dos judeus. Já tinham sido racistas contra negros antes, viviam falando um monte de vento fedido e fazendo comentários absolutamente degradantes e nada havia acontecido.

É claro que tanto o sujeito do podcast quanto o comentarista de TV devem sim ser demitidos, juntamente com o processo contra o deputado oriundo do MBL deve ser caçado e proibido de agir politicamente por, pelo menos, 8 anos. Mas essa reação é tardia.

No entanto, as Lágrimas Insubmissas das mulheres relatadas por Conceição Evaristo repercutem e ecoam nos fatos todos que ouvimos diariamente.

2 respostas

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