Um Beijo no Asfalto

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Poucas vezes vou ao teatro e saio aborrecido. Sou um apaixonado pela arte e mesmo em peças ruins, tiro alguma coisa proveitosa. Não foi o caso de ontem.

Depois de 2 anos sem freqüentar salas de espetáculo, fui todo animadinho, acompanhado de um sobrinho de santo, à maravilhosa sala do CCBB de Brasília para ver uma das peças do Nelson Rodrigues que mais amo: O Beijo no Asfalto.

Já participei de uma montagem amadora dessa peça, uma conclusão de curso de um colega, fiz o papel de Aruba e em seguida, de Aprígio. A peça tem curvas dramáticas importantes, discute um tema atualíssimo – o quanto a mentira divulgada em veículos de comunicação de massa pode destruir vidas – ao mesmo tempo que mostra o drama de uma família de classe média da Tijuca, nos anos de 1950, no Rio de Janeiro.

Nelson é daqueles autores que representam a dramaturgia do País. Por retratar as angústias, taras e conflitos de seu bairro no subúrbio do Rio de Janeiro, acaba por se comunicar com o mundo todo.

O Beijo é uma peça conhecidíssima, montada pelos mais diversos grupos, nas mais diversas formas imagináveis e rendeu dois filmes: o primeiro do Bruno Barreto, de 1981, com Ney Latorraca no papel de Arandir, Tarcísio Meira como Aprígio, Cristiane Torloni fazendo a Selminha e Lídia Brondi no papel da irmã mais nova, Dália; o segundo, mais recente, com direção de Murilo Benício, traz Lázaro Ramos brilhando como Arandir, Stenio Garcia fazendo o Aprígio, Débora Fallabela fazendo Selminha e Luiza Tiso como Dália.

Houve já um equívoco inexplicável, produzido pelo filho da Lucinha Lins, Claudio Lins, que foi transformar esse espetáculo num musical. Embora contasse com Gracindo Júnior no papel de Aprígio e a divina Laila Garin como Selminha, excelentes atores, a montagem foi um erro do começo ao fim, com destaque para a cena do enterro do atropelado, que foi transformada num baile de carnaval com direito ao defunto dançando dentro do caixão. Grotesco em vários níveis.

Não obstante todo esse erro, a montagem de Claudio Lins respeitava o que, para quem trabalha com teatro, é o mais sagrado na obra de Nelson: sua excelência, o texto. O velho escrevia com uma precisão cirúrgica. As falas são todas carregadas de entrelinhas, significados e subtextos, os quais devem ser descobertos e ressaltados pelos atores na montagem. Cabe ao diretor saber o que a obra quer dizer, saber o que ele quer dizer quando monta um texto tão rico, em que cabem diversas interpretações e direcionamentos dessa tragédia urbana realista.

É possível ver nas entrelinhas uma condenação à homofobia, as ironias finas para descrever a fofoqueira de bairro, personagem tão comum no mundo, o machismo entranhado em nossa sociedade. É possível uma grande variedade de leituras dessa peça, que tem por linha principal de encenação a divulgação da mentira por um jornal respeitável, destruindo várias vidas.

Nada disso foi possível ver ontem. Na tentativa de “contemporaneizar” o espetáculo, os realizadores  colocaram uma procissão com máscaras passando por trás de uma transparência, cujo significado era hermético demais para toda a plateia, e um carrinho puxando o atropelado nu, envolvido num plástico, que atravessava o proscênio talvez à guisa de divisão de atos. Mas, pelo menos para minha pouca inteligência, símbolos incompreensíveis.

A encenação é simples: uma fila de cadeiras alinhadas no meio do palco, deixando o fundo de cena e o proscênio livres para a movimentação dos atores, mas era um desperdício, porque não houve nenhuma profundidade nesse deslocamento. As personagens vinham à frente e falavam o texto, na maior parte do desenvolvimento cênico, como numa montagem do Globe Theatre de 1600.

O pior de tudo, nessa montagem, foi o completo massacre cometido contra o texto original. Dália, a irmã mais nova, cuja presença na casa de Selminha e Arandir gera aquela tensão comum nas relações fraternais, dá lugar a um gêmeo de Selminha, Osvaldinho, meio marginal, meio revoltadinho, mas completamente fora do roteiro original e cuja contribuição para o desenvolvimento do drama tijucano é nula. O Delegado Cunha se torna Aparecida Cunha, uma delegada histriônica; Amado Ribeiro também tenta fazer graça com a desgraça que vai causar, e também foi rebatizado de Jaci. D. Matilde, a vizinha fofoqueira, num figurino impecável (aliás, o único condizente com a época em que a peça foi escrita), mas totalmente descontextualizado, se torna também a colega de Arandir, que afirma ter visto o atropelado na repartição. Essas adaptações (exceto o Osvaldinho), são totalmente passáveis, desde que o texto rodrigueano se mantivesse íntegro, mas não é o que se ouve durante a hora e quinze de tortura.

Cenas imprescindíveis para a compreensão do drama familiar foram simplesmente extirpadas: a cena em que Dália diz a Aprígio que conhece o segredo do pai, a cena do estupro de Selminha por Amado Ribeiro e Cunha, por exemplo, deixaram de existir sem nenhuma explicação. Aprígio é mostrado linearmente, o personagem perde a profundidade do pai atormentado por um segredo para se transformar num coroa sem nuances de comportamento (verdade que eliminar Dália da peça tira muitas possibilidades de colorir o personagem do pai nas contracenas com a filha mais nova).

A atriz que faz Selminha parece que está num esquete de Zorra Total da rede Globo. Em vários momentos, eu enxerguei uma personagem de Maria Clara Gueiros nos trejeitos da personagem.

Vou me abster de comentar a performance da Viúva e de Osvaldinho, porque estão abaixo de qualquer crítica.

Surpreendentemente, Arandir é o melhor personagem dessa montagem. O ator consegue mostrar com certa competência a angústia de alguém cujo nome está envolvido numa rede de mentiras divulgadas por um jornal. Na verdade, não sei se porque o restante do elenco era tão fraco, que ele se sobressaiu.

Por fim, foram R$ 15,00 cobrados pelo ingresso bem desperdiçados.

P.S.: Não vou falar o nome de ninguém que participou da montagem, porque acho que há salvação para esses atores, com estudo e dedicação.

3 Respostas para “Um Beijo no Asfalto”

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