Um teatro realista porém onírico.

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Sexta-feira estive no Rio de Janeiro e pude assistir à excelente “O Homem do Planeta Auschwitz”, de Miriam Halfim, direção de Ary Coslov e as brilhantes atuações de Susanna Kruger e Mario Borges. A peça traz um fictício encontro entre Yehiel De-Nur, um judeu polonês, sobrevivente dos horrores nazistas, e Hannah Arendt, filósofa judia alemã, que conseguiu fugir da guerra e se refugiar nos Estados Unidos da América do Norte.

O texto é vibrante e, segundo a autora, é uma compilação de frases de ambos, formando um diálogo instigante sobre as desavenças filosóficas entre ambos.

Hannah é autora reconhecida mundialmente e sofreu o repúdio da comunidade judaica após relatar o julgamento do carrasco Eischmann proferido por uma corte em Israel. Na visão da filósofa, o julgamento foi a negação dos princípios do Direito, uma vez que o nazista foi capturado de forma clandestina, levado a um tribunal ad hoc, e sem observar os princípios da ampla defesa. Yehel era testemunha nesse julgamento e, ao recordar para depor, sofreu um desmaio, impedindo o relato completo dos horrores.

A encenação é emocionante, mesmo o texto sendo árido. Eu levei comigo um amigo que não tem uma escolaridade elevada, nem leituras profundas e variadas. Um homem simples, um brasileiro. De vez em quando olhava para ver as reações dele, diante de tanta complexidade. Ele estava com os olhos vidrados e os ouvidos atentos. Isso é o resultado de uma montagem adequada. Trazer a profundidade de Hannah Arendt e do tema tão controverso para pessoas comuns, fora da academia e do mundo intelectual. Depois da peça, fomos tomar a cervejinha e falar sobre o que ele tinha visto e ele compreendeu tudo, ainda me explicou e me fez ver coisas que eu tinha deixado passar, quebrando a minha arrogância.

É de se destacar a quebra cênica quase brechtiana que Hannah Arendt faz. Um discurso atual e pujante.

A iluminação, a cargo de Aurélio de Simoni é delicada e, como sempre, um realce à cena, destacando e levando o olhar da plateia para lugares brilhantes. Há um momento incrível, em que a sonoplastia e a sombra se misturam, deixando ainda mais incrível o cenário, realçando a aparência de sonho dada ao diálogo instigante. Tudo isso se desenrola sob a batuta competentíssima de Ary Coslov, numa direção exata, que realça o talento do casal de atores.

Enfim, é um espetáculo imperdível.

Não obstante a beleza da encenação e apesar de tratar de um assunto dolorido, durante toda a peça fiquei a pensar numa fala que ouvi de alguém: a tragédia dos judeus é emblemática e grave, mas ninguém considera da mesma forma a devastação populacional operada pelos colonizadores europeus, a partir do século XV, nas Américas e em várias nações africanas.

De fato, o Holocausto judeu durante o conflito que vai de 1939 a 1945 é de uma crueldade e de uma perversidade que beiram o insuportável, mas não se fala da mesma forma das ações do rei Leopoldo da Bélgica no Congo, por exemplo, ou de como os portugueses, holandeses, ingleses e franceses escravizaram populações inteiras a partir do séc. XVI, para trabalharem nas colônias americanas. Os portugueses dizimaram centenas de nações indígenas originárias do que hoje chamamos de Brasil e, nos livros de história da década de 1980 (quando estudei o assunto), eram tratados como heróis.

Embora tenha me ocorrido, em primeiro lugar, que o massacre e a dizimação das populações africanas e americanas tenham se dado ao longo de vários séculos, amortecendo o horror, enquanto os judeus sofreram a ação deletéria dos nazistas em pouco menos de uma década, num século em que a informação já era difundida com muito mais rapidez e as imagens já eram mais facilmente obtidas por meio do cinema e da fotografia, talvez essa razão se desvaneça quando nos lembramos dos fatos devastadores do Séc. XXI.

Afinal, nos últimos anos, os EUAN invadiram países árabes e africanos, causando fugas em massa de gente morena e agora, quando a Rússia invadiu a Ucrânia, vimos manifestações absolutamente execráveis da imprensa europeia. Enquanto os negros são impedidos de entrar nas fronteiras, os ucranianos, brancos, loiros e de olhos azuis, são não só aceitos, mas acolhidos. E ainda houve repórteres dizendo: “eles (os ucranianos) não são como os outros refugiados, são gente branca, que poderia estar normalmente morando na mesma rua que você!”

Ou seja: de fato, não houve reflexão e não se considerou a devastação das populações ameríndias e africanas como genocídio, porque o europeu não nos considera gente.

E isso tudo reflete demais o pensamento de Arendt, uma vez que a principal investigação da filósofa é no sentido de tentar entender a razão pela qual os seres humanos são tão autodestrutivos e voltam tanto o ódio aos seus semelhantes.

One Reply to “Um teatro realista porém onírico.”

  1. Valter Antonio Soares says: Responder

    Realmente o ser humano e muito destrutivo. Amei seu processo pensativo me deixou muito encantado. Gostaria muito que mais pessoas fossem como vc

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