Como é viver numa família de artistas

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Há algumas semanas eu assisti ao seriado de 14 episódios, atualmente em cartaz na Amazon Prime, Em Casa Com os Gil. São tantas coisas boas para dizer sobre esse produto que é até difícil saber por onde começar, mas vou arriscar iniciar pela presença de Flora.

A esposa de Gil há muitos anos é uma entidade, uma mulher incrível, inspiradora, forte e agregadora, daquelas que dá vontade de ficar amigo sempre. Os episódios não são sobre ela, são sobre toda a família e em cada um, um membro da família escolhe uma canção que será apresentada em uma turnê do clã pela Europa, quando todos viajarão juntos, se apresentando em países como Inglaterra, Alemanha, França, Espanha e Marrocos, dentre outros.

Dirigido por Andrucha Waddington, esse programa de realidade me cansou questões intrigantes. Em primeiro lugar, como é linda e entrosada a família imensa do patriarca Gilberto Gil. Ele mesmo está quase um Orixá, de tão escandalosamente forte e transcendente na vida. São 80 anos de uma felicidade transbordante, muito embora tenha havido enormes contratempos e revezes, tais como o exílio em Londres, os episódios de racismo explícito, e os inúmeros obstáculos da vida de qualquer um. Flora está presente em todos os momentos, a partir do momento em que se uniram (e, como eu não sou bom de fofoca de artistas, nem sei quando essa união iniciou)

Além disso, fiquei pensando no quanto há gente verdadeiramente consistente e interessante, digna de servir de exemplo e de inspiração para um mundo melhor. Seguir a família Gil por todos os episódios me fez detestar ainda mais lixos pop, tais como os kardashian e os BBB e A fazendas da vida. O espetáculo de realidade dos Gil é sensível, amoroso, propaga o amor e o entendimento, debate questões artísticas importantes e, principalmente, transpassado por um senso de união familiar difícil de ver atualmente.

Como disse antes, os Gil se reuniram para decidir o repertório da turnê, planejada pela filha Preta Gil, que está rolando na Europa (torcendo muito para essa turnê também dar ensejo a um novo seriado). Foram escolhidas as seguintes canções: Palco, Barato Total, Back in Bahia, Esotérico, Queremos Saber, Superhomem – a canção, Drão, Sereno, Não tenho medo da Morte, Cores Vivas, Babá Alapalá, Touche Pas a Mon Pote, Feliz por um Triz, Sítio do Picapau Amarelo e, finalmente, Realce. São todas canções que eu amo muito e só senti falta de Refazenda, para mim, uma das mais simbólicas e representativas do repertório de Gilberto Gil. As escolhas são feitas em assembleia familiar e aprovadas pelo patriarca. Discussões acaloradas e ternas envolvem as escolhas e, ao final de cada episódio, a família, no belíssimo cenário de uma fazenda em Araras, faz um ensaio.

A outra questão que me perpassou foi de como uma família criada em meio a arte pode ser curativa, gerar gente tão sensível com a condição humana e com as questões contemporâneas tão importantes para o desenvolvimento da humanidade enquanto tal. O fato de ser uma família de negros, no Brasil atual, ainda traz uma outra camada à discussão. São bem sucedidos, têm grana, estão, de certa forma, protegidos do racismo estrutural mas arraigado, mas mesmo assim relatam episódios dessa prática odiosa do nosso País. Mesmo assim, souberam lidar com isso com inteligência e superar, responder à altura e atuar de modo a combater esse mal inerente à nossa realidade.

Recomendo demais assistir a todos os episódios e, como eu, se emocionar com a família amorosa e linda de Gilberto Gil e Flora.

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