Nos caminhos do sagrado.

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Usualmente eu posto aqui no Blog impressões sobre obras de arte, acontecimentos políticos, entretenimento e quetais. Hoje, quero falar sobre mim e minha trajetória nos caminhos de Nkice.

Raízes profundas dão árvores saudáveis

Este ano completei 25 anos de iniciado nas tradições do Candomblé Angola, raiz de Maçanganga de Cariolé, iniciada por Omikilenge ainda na primeira metade do Séc. XX. Meu bisavô de santo, Rufino bom-no-pó, ou Rufino de Beiru, iniciado por Omikilenge para Oxum, foi para o Rio de Janeiro e iniciou Mirinho de Oxum (Argemiro Antônio da Matta) ainda na década de 1960.

Meu finado Zelador de Santo, pai Krishna, foi iniciado em 1981 para o Nkice Nsumbo, e recebeu a dijina de Inguessi. Esta é a minha raiz, razão do meu orgulho e o chão sobre o qual caminho nas veredas da fé.

Eu nasci numa família católica, mas durante a adolescência aqueles dogmas não conseguiam responder às minhas angústias. Os padres eram, no mínimo, simplórios e reduziam o catecismo e o conhecimento da fé cristã a um amontoado de dogmas sem sentido. Afastei-me da igreja aos 16 anos, tornando-me ateu.

O Início

Mas sempre fui um admirador das religiões de matriz africana, não pelo aspecto transcendental, mas pelo que representaram de oposição à opressão branca europeia. Não obstante, não acreditava. O tempo passou, eu saí de casa, passei num concurso para a Imprensa Nacional, onde conheci a minha grande amiga, hoje irmã, mãe e filha, Silvia. Ela resistia um bocado, mas a família do marido, meu amigão Maurício, sempre foi espírita e a irmã dele, Mariza, teve de ser iniciada para Lembarenganga. Nesse momento, Silvia começou também a freqüentar o terreiro de Angola.

Tempos depois, ela me convidou para uma sessão. O Candomblé ainda estava de luto, pela passagem de vô Mirinho, mas a Umbanda de pai Krishna estava a todo vapor. Fui, ainda no espírito de respeito às tradições afro-brasileiras, mas ainda cético com relação à transcendência.

Fui ainda mais uma vez, recebi um passe de preto-velho e, algumas coisas da minha vida estavam meio atravancadas e eu conversei com um Caboclo. Ele me deu uma receita, eu fiz e as coisas se resolveram com muita facilidade e, na próxima sessão, resolvi conversar novamente com o Caboclo e agradecer.

Foi então que aconteceu. A espiritualidade se manifestou fortemente e eu recebi um caboclo. Transe bruto, consciente e assustador. Na segunda-feira seguinte, liguei para o meu psicólogo na época, o Dejair Carvalho, e perguntei se eu poderia ser esquizofrênico, porque eu não acreditava em transe. Ou era auto hipnose ou crise esquizofrênica. Dejair me sossegou e, só depois que o materialismo freudiano sancionou o transe eu me convenci de que podia ser religioso.

Iniciação

Nessa toada, chegamos ao ano de 1997. Naquele ano, fui iniciado para Kabila, o Nkice da caça e da fartura na tradição de Angola. Minha amiga Silvia já havia sido iniciada Makota do Abassá, no barco com a esposa do Tata, Ana Maria, também Makota, mas com a designação de Mametu Ndengue do Agassá. Ambas são imprescindíveis no meu crescimento dentro do axé.

O iniciado nos mistérios tem de cumprir vários preceitos, dar obrigações periódicas, até se graduar, no mínimo com 7 anos de feitura. Eu, felizmente, consegui cumprir todas no tempo correto. Kabila e Kissimbe, que regem o meu Ori, me deram a graça de tomar todas elas com a mesma navalha: 1, 3, 7, 14 e 21 anos de santo.

Os 10 anos de feito, em 2007, recebi um convite para executar um trabalho no Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro e me transferi para lá. Considero esse momento imprescindível para o conhecimento da minha trajetória, porque sinto que Nkice me levou para lá para reatar uma ponte de contato com a raiz muito fragilizada. E isso aconteceu. Me aproximei de Mãe Nini de Oxum, a Yalorixá que dava comida ao santo de meu Tata, de pai Herval, mãe Vilma, mãe Lucinha e, principalmente, para a pessoa que, neste momento, cuida do meu ori e do meu Nkice, Pejigã Eládio de Ossãe.

Consegui me aproximar de todos e foi uma felicidade enorme, porque somos uma verdadeira família espiritual.

A vida nos prega peças terríveis

Durante o período pandêmico, Tata Inguessi pereceu da doença. A direção do Abassá me foi passada pelo herdeiro e cabe a mim, agora, levar adiante a tradição de Angola e da raiz de Maçanganga de Cariolé. É uma tarefa hercúlea, porque pretendo manter as tradições como devem ser.

Em julho último, celebrei 25 anos de feitura com a festa de reabertura do Abassá, passado o período de luto. Pai Eládio veio do Rio para as obrigações e para tocar o Candomblé, que foi lindo.

Agradeço aos meus mais velhosaos Jinkice pela força que me dão diariamente para seguir nessa jornada difícil, mas profundamente gratificante.

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