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CINEMA

Freud não seria novidade

Se respeitássemos mais as tradições africanas

Sankofa é um ideograma presente no adinkra, conjunto de símbolos ideográficos dos povos acã, grupo linguístico da África Ocidental. Pode ser representado por um pássaro com a cabeça voltada para trás ou também por forma composta de duas voltas justpostas, espelhadas, formadas por volutas contíguas em sentidos opostos, resultando numa forma semelhante ao laserpício (“forma de coração”).

Em sua etimologia, o termo sankofa pode ser traduzido literalmente como “volte e pegue” (san – voltar, retornar; ko – ir; fa – olhar, buscar e pegar).

Segundo Abdias do Nascimento, o conceito representado pela sankofa traduz-se por “retornar ao passado para ressignificar o presente e construir o futuro”.[1]

É frequentemente associada ao provérbio: “Se wo were fi na wosankofa a yenkyi,” que se traduz por “Não é errado voltar atrás pelo que esqueceste” [2]

A sankofa aparece frequentemente na arte acã tradicional. É um dos símbolos mais difundidos do adinkra, sendo encontrado em joias modernas, mobiliário, esculturas e roupas.

No Brasil, é muito encontrada em artigos de ferro, tendo sido introduzida por escravos trazidos no período colonial.

(fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Sankofa)

É também o título de um documentário mais que sensacional, que estou acompanhando pelo Netflix. Estou encantado, mesmo que ainda faltem dois ou três episódios, com a narrativa e a busca de Cesar Fraga e Maurício Barros de Castro pelas raízes e os lugares de memória dos povos violentamente escravizados e trazidos para as Américas.

É uma verdadeira “quest”, só que, neste caso, o Graal não é o cálice usado pelo Cristo na última ceia com os apóstolos, mas o pertencimento, o reconhecimento da importância dos grandes reinos africanos, em especial do Senegal, Gana, Benin, Togo,  Nigéria, Angola e Moçambique, de onde mais de 12 milhões de almas foram covardemente arrancadas para suprir o perverso modo de produção do capitalismo colonial.

Permeando a narrativa do fotógrafo e do historiador, Cesar e Maurício, estão os deliciosos Itáns contados magistralmente por Zezé Motta, a inesquecível atriz e ativista brasileira, e depoimentos e entrevista com escritores, historiadores, artistas, sociólogos e demais intelectuais estudiosos da causa negra no Brasil.

O melhor de tudo é, embora seja um documentário, não tem o tom didático e professoral capaz de retirar a atenção da narrativa e dar sono. É instigante. Cada capítulo é um País. As fotografias são belíssimas e vamos reconhecendo traços do povo brasileiro comum com o outro lado do Atlântico.

Muito potente é ressignificação. Encontramos pelourinhos, como os de Alcântara/MA e Salvador/BA, outrora “onde os escravos eram castigados e hoje um batuque com a pureza de meninos uniformizados de escola secundária em dia de parada” (VELLOSO, Caetano e GIL, Gilberto – Haiti), no caso de Salvador e uma exposição histórico-geográfica são motivo de orgulho.

Sim, porque eram castigados os negros rebeldes, os que fugiam, os que não aceitavam a condição de desumanidade imposta pela pervertida lógica do conquistador europeu. Nesse sentido, é de se ter orgulho dos rebeldes, daqueles que segundo Wilson Moreira e Nei Lopes, não eram pai joão, “viviam sempre fugindo e arrumando confusão” (Coisa da Antiga, na belíssima voz de Clara Nunes).

Além dos pelourinhos, os museus espalhados pela costa africana trazem sempre à memória esse passado execrável. Até a contradição do culto a Chachá, no Benin, é retraduzido nessa viagem à memória dos lugares de onde os antepassados dos negros brasileiros foram cruelmente arrancados.

Celebração de Dan, a cobra mitológica, Oxumaré para os Yorubá e Angorô para os Bantu. Acontece uma vez a cada 24 anos e Cesar teve o privilégio de estar na hora certa, no lugar exato

Essa história não pode ser apagada e tem de ser, cada dia mais, estudada e compreendida, em contraponto ao mito do brasileiro cordial, da democracia racial e da boa convivência trazida pela miscigenação. É tudo mentira. Somos um povo racista, misógino e antipatriota e a prova disso é chegarmos a 2018 com a eleição dessa besta-fera que atualmente nos desgoverna e está conduzindo o Brasil a um abismo econômico-financeiro e social do qual será praticamente impossível nos reerguermos, se nenhuma providência for tomada urgentemente.

E qualquer medida que ignore esses estudos está fadada ao fracasso. É urgente e imprescindível conhecermos nosso passado, a importância do povo negro e do indígena na nossa formação e repararmos historicamente todo o mal que foi imposto a esses povos.

Sankofa não trata disso especificamente, mas tem de ser visto com olhos de quem reconhece no conceito um toque psicanalítico freudiano impossível de se ignorar. Voltar para buscar o que está esquecido é a máxima da reparação de qualquer trauma. O passado dos povos negros foi apagado. Está mais que na hora de buscarmos, para podermos ultrapassar esse fosso de desigualdade em que se tornou o Brasil.

2 respostas

  1. Sensacional! Eu conhecia este símbolo Sankofa e achei muito interessante vc abordar o tema com tanto significado, me reavivou a memória, admiro muito a pesquisa realizada por Abdias do Nascimento. Itamar Assumpção também usou muito o Sankofa.

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