Deu no Correio Brasiliense de hoje que a estratégia dos advogados de defesa do deputado palhaço paulista é se utilizarem todos os recursos disponíveis, até que a ação chegue ao Supremo Tribunal Federal. É uma estratégia legítima, legal, mas nem por isso inocente. O tal Partido da República contava com a popularidade do palhaço-candidato para levar, por conta do coeficiente eleitoral, outros candidatos menos expressivos para Brasília.

Segundo a matéria do Correio, o PR está pagando um professor particular, de modo  a conseguir a alfabetização do Tiririca antes dele ser chamado a comprovar se já sabia ler quando foi eleito. Ou seja, é utilizar-se de má-fé mesmo. Por que não se preocuparam com isso durante a campanha? É revoltante a utilização do sistema para o benefício de alguns, sejam eles quem forem. Como disse o promotor eleitoral que acusa Tiririca de analfabetismo, os advogados são dados a práticas sórdidas mesmo, de modo a distorcer o sentido e o espírito das leis para beneficiar seus clientes, mas essa atitude ultrapassa os limites da moralidade pública.

Claro que é uma generalização meio absurda o que o promotor fez, porque tanto há calhordas em todas as profissões, como há gente honesta também atuando na advocacia. Há profissionais que não pegam causas com as quais não concordam, ou defendem seus clientes nos mais estritos limites da ética, da moralidade e da legalidade. Mas esse eposódio assume uma gravidade extra. Não se trata do interesse individual, da simples defesa de uma causa civil, previdenciária ou mesmo administrativa contra o Estado, em que o cidadão está de um lado defendendo seus interesses legalmente protegidos. Não. Neste caso, o fato de um analfabeto ser eleito para a câmara dos deputados é de uma seriedade ímpar.

Naquela casa são discutidas as leis que regulamentam as nossas vidas. Tudo o que nos aflige ou nos beneficia é objeto de análise pelos deputados. Há um enorme número de projetos sendo analisados diariamente, todos escritos. Se um indivíduo não consegue “ler de carreirinha”, mesmo que isso não seja culpa exclusiva dele, mas de toda a estrutura de ensino – que já foi objeto de outros posts – não pode opinar. Não há como votar, formar uma opinião, primária que seja, sobre assuntos de extrema gravidade, como a criação de um imposto, aumento de alguma taxa pública, liberação ou proibição de atitudes, relacionamentos familiares, patrimoniais, de sucessão, trabalhistas etc.

São, enfim, assuntos complexos e que nos afetam diretamente, e às vezes trazendo grande prejuízo à sociedade. Diferentemente da eleição do Cacareco para prefeitura do Rio de Janeiro na década de sessenta, que representou um protesto contra a situação vigente à época, a eleição de Tiririca é um grande perigo para o sistema democrático como um todo. Alguns podem ter pensado que votando no palhaço teriam descarregado algum tipo de frustração com “tudo isso que está aí”, mas no fundo, acabaram por servir à manobra subreptícia de alçar à câmara dos deputados uma meia dúzia de inexpressivos nomes, que durante quatro anos discutirão diversos assuntos que nos afetarão por todo o resto de nossas vidas. A quem, de fato, foi dirigido o protesto?

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