Gente, definitivamente eu tenho um problema com a manutenção de diários. Eu passei algum tempo meio anestesiado, pensando no que eu deveria escrever. São tantos assuntos na minha cabeça: continuar o projeto a quatro mãos com minha amiga Noemia, terminar um conto que está rondando minha cabeça há anos, escrever sobre a efervescência política atual. Enfim.

Hoje, finalmente, tenho algum tempo pra escrever e vai ser meio miscelânea.

Primeiro as cusparadas, claro! Foi um assunto bastante comentado na segunda quinzena do mês, por conta de duas pessoas públicas e famosas, que se utilizaram dessa forma de resposta ou de agressão. Pois bem, Agualusa escreveu maravilhosamente bem sobre isso n’O Globo e quem sou eu para tentar me comparar, mas, mesmo assim, gostaria de dar a minha impressão sobre as emissões salivares de abril.

Estávamos todos, o Brasil e algumas partes do mundo, estarrecidos com demonstrações de insanidade, religiosidade, desonestidade, oportunismo,  espetáculo circense de baixa categoria, misturadas com alguma coragem e lucidez. A transmissão ao vivo em vários canais de televisão ajudava a tornar a performance grotesca ainda mais embaraçosa, mas era sensacional ver o Brasil inteiro enxergando, com uma lente de aumento, as entranhas do nosso parlamento.

Quando foi a vez do deputado Jean Wyllys, do PSOL do Rio de Janeiro, proferir seu voto, vaias, apupos e, ao fundo, aquele de quem não se pode dizer o nome sob pena de invocar o rabudo, proferindo ofensas e debochando. Pois bem, Jean Wyllys terminou de proferir uma corajosa defesa das minorias, como é pautada toda a atuação parlamentar dele, e votou contra a continuação do processo de impedimento da Presidenta. Quando desceu da tribuna, o tal deputado demoníaco ainda o ofendia e, levando-se em conta o estresse do momento, a reação do Jean foi até branda. Voltou-se e tentou cuspir-lhe na face.

Pelo aspecto fisiológico, cospe-se para se limpar a garganta, eliminar catarro, eliminar saliva grossa da boca, ou ainda quando tentamos ingerir algum alimento desagradável. Mas a cusparada disparada após uma ofensa tem outros símbolos e atinge outro campo da semântica do comportamento humano. Às vezes representa o nojo que sentimos da situação que presenciamos, ou da pessoa com quem falamos. Normalmente esse cuspe é direcionado ao chão, mas pode haver variações. Por outro lado, quando alguém fica profundamente ofendido por insultos, mas não o suficiente para partir para a agressão física, a emissão de saliva pode significar a rejeição dos insultos. O ofendido não engoliu os impropérios nem os enxovalhos, guardou-os na cavidade bucal e os devolveu diretamente.

Nas redes sociais, alguns dos meus amigos, inclusive alguns gays, argumentaram que a reação de Jean foi exagerada. Eu, particularmente, achei a reação até branda. Eu não me garanto fisicamente e provavelmente iria apanhar muito, mas partiria, pelo menos, para a bofetada. Especialmente porque esses insultos me lembram meu tempo de infância e adolescência e do quanto os valentões xingam quem é mais fraco, gays, e raramente conseguimos reagir, ainda mais que qualquer reação será tomada por histeria. Então, tentei imaginar por que algum homossexual pudesse se sentir ofendido por uma cusparada emitida contra um dos maiores algozes da causa gay no Brasil.

Seria a síndrome de Estocolmo? O medo de parecer gay? De ser considerado como aquele que reagiu? O fato é que aquela cusparada lavou a minha alma! Ver aquele não-sei-que-diga ser enfrentado foi magnífico! Eu adorei. Foi como se voltasse à infância e cuspisse em cada um dos meus algozes, como se tivesse retornado à adolescência e criado coragem para esbofetear cada ofensa recebida. Enfim, foi catártico.

Em seguida, uma outra amiga publicou uma foto escrota, de um capacete com viseira transparente, dizendo que era o novo acessório para discutir com petistas. Isso veio logo após o episódio do ator José de Abreu num restaurante de São Paulo. No post do facebook eu escrevi como se se tratasse ainda da cusparada do Jean, embora saiba que ele não é petista, mas como nem o José de Abreu é, achei que também caberia.

A questão é: o casal não estava conversando e colocando os pontos contrários ao governo do PT. Estava simplesmente insultando um trabalhador da arte. Assim como o tal que-não-se-diz-o-nome, não há um diálogo, uma conversa. Só uma série de epítetos depreciativos, ofensas gratuitas. Isso pediu uma reação. Não dá pra ser sempre elegante como o Chico Buarque. Às vezes é necessário ser violento sim. É essa a língua que os fascistas entendem.

Então, obrigado Jean Wyllys, obrigado José de Abreu! Suas cusparadas simbólicas me representam e são catárticas para mim, sim.

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