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Hoje eu estava com alguns temas para falar sobre, mas acho que devo voltar às origens antes de tudo. Eu sou de uma família pobre. Meu pai era motorista de táxi e minha mãe professora primária do Estado de Goiás quando eles se casaram. Viveram algum tempo numa edícula que, segundo minha mãe, nem permitiu que eu engatinhasse, por falta de espaço. Depois compraram uma casa num bairro modesto da periferia de Goiânia, um lugar entre o bairro de Campinas e o que hoje é o Setor Coimbra. Era uma casa boa, as minhas primeiras lembranças são de lá. Minha mãe conta que, na primeira noite que passei na nova residência, eu tinha pouco mais de um ano, não dormi por causa do espaço à minha volta. Espalhei os brinquedos e fiquei a noite toda brincando. Minha irmã mais nova já nasceu lá e nela moramos até eu completar 11 anos.

Meu pai devia trabalhar muito, porque pouco me lembro dele nessa época. A lembrança mais marcante, talvez porque traumática, é de um passeio no táxi dele, um aero wyllys. Estávamos sentados no banco de trás e vimos uma menina ser atropelada. Eu não me lembro muito dos detalhes, mas ficou registrado para mim que a menina parecia uma boneca quebrada.  Mas além de motorista de táxi, ele era motorista na Assembleia Legislativa de Goiás e depois se licenciou por um longo período para gerenciar um posto de gasolina pertencente a uns primos de mamãe, o Posto C, onde trabalhou até nossa mudança para Jaraguá, em janeiro de 1977.

Mas por que estou falando disso tudo? Porque pensei que, se meu pai ainda estivesse vivo, este seria o último ano que nos falaríamos. Nossa relação sempre foi muito difícil, muito complicada. Ele intuía a minha homossexualidade e execrava essa orientação. Várias vezes disse que os gays deviam ser mortos, mencionava sempre aquele cliché que preferia o filho assassino ou traficante a viado, enfim dizia coisas horríveis e eu sabia que ele sentia aquilo de verdade. E era paradoxal, porque por outro lado sempre dizia que amava os filhos mais do que tudo na vida, que me apoiaria em qualquer situação. Para um menino de 11, 12 anos, isso era muito confuso. Naquele momento eu já intuía também a minha homossexualidade, mas pensava ser uma fase.

Pois bem, ano passado o sujeito que ocupa a Presidência da República foi eleito por mais de cinquenta milhões de cidadãos brasileiros. Claro que nem todos eles são fascistas, mas meu pai seria um daqueles eleitores que o apoiariam exatamente pelo discurso homofóbico, misógino, machista e racista, porque meu pai pensava dessa forma e emitia opiniões muito semelhantes. Tenho certeza de que há uma boa parcela dos eleitores dele cujo pensamento é igual. Boa parte da família, por parte de meu pai, também votou nessa criatura infame e execrável. Talvez nem compartilhem conscientemente dos ideais fascistas, mas certamente se identificaram em algum(ns) ponto(s) com esse discurso de morte, de assassinato, de eliminação da diferença, de devastação ambiental, contrário às políticas públicas de inclusão das minorias e de combate à fome e à miséria.

Enfim, por essas razões, por mais que não possa me desligar completamente deles, porque afinal, como já dizia aquele filme italiano, parente é serpente, estou bem sem vontade de falar com a ala da família que votou nele. Vai perdurar um tempo ainda essa mágoa, esse rancor, embora eu saiba que tudo passa, e esse pesadelo político também vai acabar (e eu espero estar vivo ainda para contemplar a derrocada do discurso dessa pessoa insana). Uma hora vai passar, mas não é agora.

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  1. acertei o texto com a dica da minha amiga Eliza. O final do primeiro parágrafo estava parecendo refrão de MPB: lá lá lá lá lá!

  2. É, meu amigo querido, como você sabe, de tanto eu me lastimar, quase toda minha família, que vive em Brasília, de umas 50 pessoas votou no mal, com as únicas exceções de mim e da minha mãe. Muita coisa fica engasgada, fiquei muito tempo sem falar com eles na época da eleição, e no início do ano, as coisas foram voltando ao normal. A indignação, tristeza e incompreensão da escolha equivocada, que está fazendo tão mal ao nosso país e mesmo ao mundo, com o desmatamento absurdo, fica. Não entendo e me machuco muito tentando entender as razões e a falta de consciência humana e do meio ambiente de quem votou nesse horror que me recuso a admitir ser o presidente atual do Brasil. Negação? Freud explica. Talvez seja a única solução possível para minha revolta, raiva, indignação e tristeza com o que ocorre no nosso país atualmente, e com a anuência e voto de tanta gente que se diz “de bem”, e meus familiares inclusos. O que é capaz de uma mídia podre e a falta de politização e consciência fazer…

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Hoje eu estava com alguns temas para falar sobre, mas acho que devo voltar às origens antes de tudo. Eu sou de uma família pobre. Meu pai era motorista de táxi e minha mãe professora primária do Estado de Goiás quando eles se casaram. Viveram algum tempo numa edícula que, segundo minha mãe, nem permitiu que eu engatinhasse, por falta de espaço. Depois compraram uma casa num bairro modesto da periferia de Goiânia, um lugar entre o bairro de Campinas e o que hoje é o Setor Coimbra. Era uma casa boa, as minhas primeiras lembranças são de lá. Minha mãe conta que, na primeira noite que passei na nova residência, eu tinha pouco mais de um ano, não dormi por causa do espaço à minha volta. Espalhei os brinquedos e fiquei a noite toda brincando. Minha irmã mais nova já nasceu lá e nela moramos até eu completar 11 anos.

Meu pai devia trabalhar muito, porque pouco me lembro dele nessa época. A lembrança mais marcante, talvez porque traumática, é de um passeio no táxi dele, um aero wyllys. Estávamos sentados no banco de trás e vimos uma menina ser atropelada. Eu não me lembro muito dos detalhes, mas ficou registrado para mim que a menina parecia uma boneca quebrada.  Mas além de motorista de táxi, ele era motorista na Assembleia Legislativa de Goiás e depois se licenciou por um longo período para gerenciar um posto de gasolina pertencente a uns primos de mamãe, o Posto C, onde trabalhou até nossa mudança para Jaraguá, em janeiro de 1977.

Mas por que estou falando disso tudo? Porque pensei que, se meu pai ainda estivesse vivo, este seria o último ano que nos falaríamos. Nossa relação sempre foi muito difícil, muito complicada. Ele intuía a minha homossexualidade e execrava essa orientação. Várias vezes disse que os gays deviam ser mortos, mencionava sempre aquele cliché que preferia o filho assassino ou traficante a viado, enfim dizia coisas horríveis e eu sabia que ele sentia aquilo de verdade. E era paradoxal, porque por outro lado sempre dizia que amava os filhos mais do que tudo na vida, que me apoiaria em qualquer situação. Para um menino de 11, 12 anos, isso era muito confuso. Naquele momento eu já intuía também a minha homossexualidade, mas pensava ser uma fase.

Pois bem, ano passado o sujeito que ocupa a Presidência da República foi eleito por mais de cinquenta milhões de cidadãos brasileiros. Claro que nem todos eles são fascistas, mas meu pai seria um daqueles eleitores que o apoiariam exatamente pelo discurso homofóbico, misógino, machista e racista, porque meu pai pensava dessa forma e emitia opiniões muito semelhantes. Tenho certeza de que há uma boa parcela dos eleitores dele cujo pensamento é igual. Boa parte da família, por parte de meu pai, também votou nessa criatura infame e execrável. Talvez nem compartilhem conscientemente dos ideais fascistas, mas certamente se identificaram em algum(ns) ponto(s) com esse discurso de morte, de assassinato, de eliminação da diferença, de devastação ambiental, contrário às políticas públicas de inclusão das minorias e de combate à fome e à miséria.

Enfim, por essas razões, por mais que não possa me desligar completamente deles, porque afinal, como já dizia aquele filme italiano, parente é serpente, estou bem sem vontade de falar com a ala da família que votou nele. Vai perdurar um tempo ainda essa mágoa, esse rancor, embora eu saiba que tudo passa, e esse pesadelo político também vai acabar (e eu espero estar vivo ainda para contemplar a derrocada do discurso dessa pessoa insana). Uma hora vai passar, mas não é agora.

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  1. acertei o texto com a dica da minha amiga Eliza. O final do primeiro parágrafo estava parecendo refrão de MPB: lá lá lá lá lá!

  2. É, meu amigo querido, como você sabe, de tanto eu me lastimar, quase toda minha família, que vive em Brasília, de umas 50 pessoas votou no mal, com as únicas exceções de mim e da minha mãe. Muita coisa fica engasgada, fiquei muito tempo sem falar com eles na época da eleição, e no início do ano, as coisas foram voltando ao normal. A indignação, tristeza e incompreensão da escolha equivocada, que está fazendo tão mal ao nosso país e mesmo ao mundo, com o desmatamento absurdo, fica. Não entendo e me machuco muito tentando entender as razões e a falta de consciência humana e do meio ambiente de quem votou nesse horror que me recuso a admitir ser o presidente atual do Brasil. Negação? Freud explica. Talvez seja a única solução possível para minha revolta, raiva, indignação e tristeza com o que ocorre no nosso país atualmente, e com a anuência e voto de tanta gente que se diz “de bem”, e meus familiares inclusos. O que é capaz de uma mídia podre e a falta de politização e consciência fazer…

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