O post de hoje é bem dolorido. Eu sou uma pessoa de esquerda. Não posso me considerar marxista, porque tudo o que eu li do velho barbudo foi o Manifesto Comunista, em 1984. Depois li algumas coisinhas aqui e ali, de economistas elogiando e criticando. Portanto, não tenho subsídio teórico suficiente para debater muito.

Por outro lado, tento olhar a realidade à minha volta da maneira mais objetiva possível. O que pode soar um contrassenso para quem me conhece, porque sabem que sou um apaixonado na discussão, perco a cabeça, vitupero, um horror. Mas gosto de refletir sobre o que está à minha volta.

E descobri há tempos, algo que já mencionei em algum post do passado, que tenho muito de Policarpo Quaresma. Gosto do Brasil, das coisas daqui, do nosso jeito manhoso e malemolente, às vezes malandro, às vezes malicioso (três palavras começadas com “mal”: peculiar) Gosto de falar português, gosto de estudar a língua e os diversos falares. Amo mandioca, batata, pamonha, pequi, jaboticaba, feijoada, samba e candomblé. No entanto, esse amor não turva a minha percepção dos defeitos do País. Corrupção, malversação de dinheiro público, falta de consciência, educação combalida, uma classe média malvada.

Tudo isso pra dizer que percebo diariamente a piora na situação da cidade do Rio de Janeiro. Cada dia mais gente vem para a situação de rua, mais e mais pessoas perdem trabalho, muito comércio fechando e outros não são abertos no lugar, em suma, uma enorme decadência econômica e social nos assola.

Eu tenho pra mim que a razão dessa crise, para além da falta de jogo político da presidenta Dilma de 2014 em diante e dos absurdos jurídicos perpetrados por autoridades investidas para prender o presidente Lula, estão as manobras de uma oposição irresponsável, cujo único objetivo era enterrar os anos de governo petista. Não conseguiram. O partido continua forte. Afinal, conseguir 44% dos votos válidos na última eleição, lutando contra uma onda de conservadorismo, impulsionado pelas mentiras deslavadas perpetradas pela galera medonha que venceu as eleições, é um feito memorável. Isso com os principais quadros do partido encarcerados. Não é pra qualquer um.

O mais engraçado é que nem eu mesmo gostaria de ter votado no PT nas eleições de 2018. Para mim, esse assunto já deveria ter sido superado, as bases de uma política equilibrada, iniciada com um vento de liberalismo dos anos do PSDB e aprofundada com uma atenção maior ao social nos anos do governo do Lula deveriam ter significado que o País entrava numa onda de prosperidade. Muitas escolas inauguradas, pleno emprego, os níveis de consumo de bens duráveis subiram e os bancos lucraram obscenamente.

Eu só não contava que este sujeito tivesse tanto ganho em termos eleitorais. Era um candidato que eu avisava aos amigos: não façam chacotas, ignorem, a esse tipo de gente não se deve dar palanque nem com o deboche. Adorno já avisava que na sociedade do espetáculo, não existe publicidade ruim. Mesmo quem fala mal está contribuindo para o aumento do alcance do produto. E este presidente que ora ocupa o Planalto não passa de um produto. Espero que com curto prazo de validade, porque para mim já entrou fedendo.

Eu queria ter votado em outra proposta de governo, uma que de fato priorizasse o aumento da qualidade da educação pública e gratuita. Para mim, nada é mais importante do que a formação educacional da base da sociedade, das crianças e dos adolescentes. Uma educação que visasse a liberdade intelectual, o aprimoramento individual sem esquecer o valor do coletivo e, principalmente, o fim das opressões. Talvez até o PT pudesse corresponder a esse anseio, mas o que aconteceu foi essa radicalização absurda, em que nos tornamos ou bolsonaristas ou comunistas.

E o que foi pior nisso tudo? Foi descobrir que pessoas a quem eu nutria um profundo afeto, uma amizade sincera, parecem ter ficado cegas e defendem essa virada para o fascismo, essa abjeção política. Não consigo compreender e muito menos perdoar. Quem votou nele porque não queria a volta do PT e agora enxerga a merda que fez eu até abstraio, mas quem está com ele até o fim, como se fosse uma religião neopentecostal, esses eu não consigo mais.

Meu coração sangra quando penso em algumas amizades íntimas e queridas, mas nem essas eu consigo perdoar ou esquecer do que estão fazendo com o País. Não falo mais e acho que jamais serei capaz de perdoar.

0 resposta

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.