Ontem fui ao teatro XP Investimentos, antigo teatro do Jockey, para ver a maravilhosa Fernanda Torres interpretando a informante de João Ubaldo Ribeiro. Eu não sei até hoje se João já afirmou se são verdadeiras ou pura ficção. Prefiro acreditar na segunda hipótese, porque acredito na genialidade do autor.

Domingos de Oliveira fez uma adaptação sensacional, e Fernanda Torres é tão brilhante quanto a mãe. Arrisco o palpite que mais, mas posso ser massacrado por esta opinião. O fato é que sentada a uma mesa de vidro, servindo-se de um simples copo de uísque e com poucos recursos cênicos, a atriz nos encanta durante uma hora e meia. Há lances muito engraçados, mas de forma geral sente-se um grande constrangimento da plateia.

Fernanda está na estrada com este espetáculo há 16 anos. Claro que há um amadurecimento natural da peça, ajustes, reconfigurações, e, o pior, em 16 anos, a nossa sociedade mudou demais para pior. O conservadorismo, o falso moralismo, os pudores desnecessários tomaram conta e estão cada vez mais querendo reprimir em nome dos bons costumes.

Aí eu me pergunto: que bons costumes são esses? Bater em quem discorda de você? Oprimir a família sob um patriarcado arcaico e anacrônico? Determinar a orientação sexual apenas para a heterossexualidade, como se isso fosse possível? Proibir o sexo, nossa pulsão mais forte junto com a morte? Não consigo achar respostas para essas questões que se conformem com os tais bons costumes. A mim parece que essa defesa é a defesa da violência e da manutenção de uma ordem hipócrita e ultrapassada.

Foi bom ter visto a peça agora. Numa ordem constitucional que se aponta no horizonte, caso venha a ser elaborada uma nova constituição com essa correlação de força que temos agora, provavelmente viveremos sob uma teocracia da Igreja Universal do Reino de Deus (que eu me recuso a chamar de cristã, porque léguas distante dos ensinamentos contidos nos quatro evangelhos). Teremos de nos conformar a regras do Levítico, velhas da era de áries, sobrepujadas pela era de peixes. Talvez não vejamos a era de aquário.

Bem, fiquei meio místico, mas é que ainda ressoam em minha mente as palavras de um documentário da década de 1990 chamado Zeitgeist (disponível no youtube)

Voltando à peça, nessa nova ordem, um espetáculo desses jamais seria apresentado. Talvez até queimassem Fernanda em praça pública, juntamente com todos os exemplares do livro. Parece exagero? Fique aí parado ou aplauda essa onda de conservadorismo oportunisticamente apoiada pelos neo-liberais.

A sorte que é, mais que as teorias políticas, a Arte é uma espécie de espírito imortal. Impossível detê-la, extingui-la. Os tiranos sempre tentam e sempre perdem. Lembrem-se dos versos de Chico Buarque: “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia. Você vai ter de ver a manhã renascer e esbanjar poesia!”

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