O camarada sai do trabalho às 19h30, depois de cumprir jornada normal e uma hora e meia extraordinária, mas ele é a autoridade municipal, e por isso recebe uma verba de retribuição pelo exercício de suas funções cívicas, denominada subsídio. Filigranas jurídicas para enganar a patuleia e não vem ao caso. O importante é que ele sai do trabalho, no palácio municipal, pela porta da frente porque, ao que consta em sua memória, tem feito um bom trabalho: mantém as ruas limpas, faz campanha de conscientização, dá prioridade absoluta à educação, por esta última medida, inclusive, já foi até matéria da imprensa internacional.
O município é pequeno, o orçamento é baixo e a principal fonte de renda provém dos repasses constitucionais. Poucos serviços são prestados, a maioria da população é pobre ou remediada e todos dependem de uns poucos latifúndios que cercam a região.
Sai a pé, cumprimenta os seguranças educadamente, mas sem efusão, fala com um ou outro à porta e não se apercebe da aproximação sorrateira de uma motocicleta, quase sem barulho, cujo único ocupante se desloca pela pracinha em frente ao prédio da edilidade. O veículo não chama a atenção de ninguém, porque, depois da bicicleta, é o meio de transporte mais comum na região. Automóveis são poucos. Só um detalhe é reparável: o piloto está de capacete, contrariando regra na região que é a de não respeitar a norma de segurança referente a este dispositivo.
Subitamente, o prefeito sente uma pontada no meio das costas, uma dor intensa e a vida se apaga. Os passantes estranham a expressão de dor e o fato de ele tombar flacidamente para a frente. Correm a ajudar. Alguém grita para chamarem um médico. Cidade pequena, o médico também está saindo do hospital municipal, que fica do outro lado da praça, e corre para ver o que se acontece. Abre caminho a cotoveladas. Ao chegar à clareira, vê o corpo emborcado, a poça de sangue já formada no pavimento da calçada e reconhece de imediato a cabeleira encaracolada e grisalha do amigo de longa data. Controla as próprias emoções, ajoelha-se e testa-lhe o pulso. Nada. A morte já havia ceifado mais essa vida. Olha em volta e enxerga tudo enevoado. Sabe que os olhos marejavam, respira, engole o choro e pergunta com sua voz de trovão: “Alguém viu alguma coisa?” Ninguém responde.
Simultaneamente o delegado de polícia civil, avisado pelo telefone, se aproxima. Eram adversários políticos, mas mantinham uma boa convivência, especialmente porque era um dos poucos delegados honestos no Estado inteiro. Repete a indagação do médico, mas sua autoridade policial fala mais alto. Imediatamente começa um burburinho que vai escalando para a balbúrdia. O delegado volta a falar, forte: “Um de cada vez”.
O primeiro a se manifestar é o bêbado da praça. Afastado por um dos auxiliares de polícia, dá lugar a um dos seguranças da prefeitura, que relata ter visto um motoqueiro de capacete vindo em direção ao prefeito segundos antes, mas como são muitos os motoqueiros, o capacete lhe consumiu a atenção e por isso não anotou a placa nem viu a cor da roupa. Em seguida os depoimentos se repetem. Todos se lembram do motoqueiro de capacete, mas a cor da moto vai de preta a vermelha, passando por azul e verde, e de 150 cc a 1400 cc. Inútil prosseguir nessa linha.
Para o velório, a viúva e os dois filhos voltam da capital. O normal – choro, missa, procissão da igreja ao cemitério – e uma tristeza imensa entre os mais pobres. As ausências mais notadas são a do pastor da igreja neopentecostal recém inaugurada e a dos fazendeiros mais abastados. Calara-se uma voz e uma prática voltadas à mudança da situação dos menos favorecidos economicamente. Duas semanas depois, o vice-prefeito renuncia, talvez por medo. O presidente da Câmara dos Vereadores toma posse, prometendo manter as políticas implementadas pelo predecessor, mas isso não dura nem uma semana.
Tudo de volta ao normal, os miseráveis voltam a sofrer e os ricos, a explorar.
Isso é uma história de ficção, mas poderia ter acontecido em qualquer interiorzão desse meu Brasil. Ainda vai demorar um pouco para o povo se aperceber de suas aptidões e de sua capacidade de tomar o poder e decidir seu próprio destino.

Com a preciosa colaboração de minha querida amiga Marcinha (Marcia Helena da Costa)

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