Ontem foi o dia de reverenciar a memória de Zumbi dos Palmares. Um homem forte, da raça dos meus ancestrais divinizados angoleiros. Foi um líder num momento em que seu povo estava escravizado e ele buscava a liberdade de existir. 20 de novembro de 1695. Desde a década de 70, o 13 de maio deixou de ser a data principal para celebrar a libertação dos escravizados e 20 de novembro passou a ser referenciado como o dia de refletir sobre a consciência e a luta antirracista.

Entregar a Isabel o diploma de libertadora é conhecer somente a superfície da história. Os ingleses, desde meados do século XIX já haviam decretado o fim do tráfico negreiro e a legislação brasileira avançou nesse sentido. Mas só a legislação, porque para mentalidade do povo novecentista que habitava esta terra de mazelas de nada adiantou a proibição. Os negros continuaram sendo vendidos em mercados clandestinos.

O grande Luís Gama é uma das pessoas cuja memória deve ser engrandecida. Ele conseguiu juridicamente a liberdade de vários irmãos ao demonstrar que o título de compra era posterior à proibição do tráfico. Mas isso é apenas uma face. A luta dessas pessoas tem de ser reconhecida, engrandecida e estudada nas escolas.

Dou um desconto ao Pedro II. Foi até um sujeito esclarecido. Mas eu sou um republicano convicto. Não admito realezas, nobrezas e gente que explora o trabalho de outrem para enriquecer. Todos somos iguais perante a Lei. Mas essa igualdade nem chega a ser formal.

Ontem foi o dia de celebrar Zumbi. E a notícia que ocupou o dia foi o assassinato de João Alberto na porta de um supermercado na branca e racista Porto Alegre. Assim como a morte do menino Miguel, esta morte mexeu profundamente comigo. Os oitenta tiros na família de do músico Evandro; o estrangulamento de Pedro Gonzaga em outro supermercado da Barra da Tijuca, também no Rio de Janeiro; o caso de Valéria Santos, algemada no exercício da função no 3º Juizado Especial Criminal de Duque de Caxias e tantos outros exemplos nos envergonham, nos enchem de tristeza e revolta.

Por outro lado, vemos o tratamento totalmente diferenciado dado aos elementos burgueses. As cenas de humilhação a que é submetido um soldado da PM de São Paulo ao atender um registro de violência doméstica, o sujeito que destruiu uma sorveteria e saiu arrotando branquitude são só os que viralizaram. Mas diariamente vemos os casos de privilégio branco se acumulando.

Até poucos anos, vivíamos a ilusão bem arquitetada por antropólogos e sociólogos que nos consideravam uma democracia racial, onde o racismo não existia. Afinal, não havia locais onde a freqüência do negro fosse proibida. Para esses pensadores, racismo eram as leis segregacionistas dos EUAN, ou o apartehid da África do Sul. Aqui, não. Aqui tínhamos o bom crioulo, a ausência de proibições legais. No entanto, havia (e ainda há em alguns lugares) o elevador de serviço, o preço proibitivo, a necessidade de ganhar a vida, a escola de difícil acesso, o desincentivo, os baixos salários para a população de pele negra.

Não havia a proibição legal, mas havia um apagamento cultural. Machado de Assis, os irmãos Rebouças, Chiquinha Gonzaga, Nilo Peçanha, Maria Firmina dos Reis, são personalidades negras que foram sempre retratadas como brancas, especialmente porque tiveram um excelente trabalho reconhecido. Durante os anos do Império, os negros que se destacavam em profissões intelectuais, tinham de pedir licença do “defeito de cor” para ocuparem cargos de amanuenses, curas, padres, rábulas ou advogados. Essa é uma mancha indelével em nossa história.

E foi preciso que algumas personalidades negras como Lélia Gonzales, Milton Santos, Joel Rufino, intelectuais de primeira grandeza, viessem, já na segunda metade do séc. XX, questionar esses conceitos de Darcy Ribeiro e Sérgio Buarque de Hollanda. O brasileiro não é cordial. O brasileiro é racista. A luta dessas pessoas para serem reconhecidas fora do lugar de pertencimento a eles atribuído por uma sociedade perversa é gigantesca. Admiráveis condições específicas os fizeram se destacar, e por conta disso conseguimos enxergar do ponto de vista deles, ouvir-lhes o discurso e compreender que o privilégio pela cor da pele é uma abjeção.

Eu só estou tomando conhecimento desses autores agora, quase à beira da terceira idade. Mas fiz duas universidades, uma na década de 80 e outra no final da década de 90. As duas de Humanidades e, em nenhuma delas, tive contato com o pensamento desses luminares. Só gente branca era lida nos corredores das academias. E principalmente gente branca europeia. Somos eurocêntricos, mas além disso, nas universidades, não há espaço para a discordância. Sentamo-nos numa sala retangular, um olhando a nuca do outro, um professor ou uma professora se senta à nossa frente e nos conduz. Na faculdade de direito ainda é ainda pior, porque os professores, em sua maioria, são juízes, desembargadores, ministros e, por isso, acham que são donos de uma verdade qualquer. Então, viramos repetidores de conhecimento velhusco, avoengo, embranquecido.

Nem na faculdade de jornalismo, nem na de direito, a questão racial foi posta. Não havia razão para tanto. O corpo discente com quem convivi era, se não na totalidade, em sua esmagadora maioria, brancos.

Ontem mataram João Alberto. Ele foi noticiado em todo o país e hoje as bancas de jornal de Copacabana estampam manchetes antirracistas. Mas o jornalismo televisivo considera os atos de protesto ocorridos ontem, principalmente em São Paulo, como vandalismo.

Precisamos aprender que lutar contra uma opressão secular vai gerar uma reação violenta sim. E que o prejuízo de uma lojinha de bosta, numa cidadezinha de merda, num país governado por uma excrecência política que defeca diariamente pela boca não vai afetar em nada os lucros de uma rede internacional de supermercados, que, inclusive, já protagonizou cenas horrendas, como o espancamento de um cãozinho e a ausência de socorro a uma vítima fatal que foi acobertada com guarda-sóis.

Mas tudo isso só vai acabar quando nós todos nos reconhecermos em nosso racismo e pararmos de dizer que não o somos. A luta antirracista passa pelo reconhecimento do privilégio que tivemos e pelas ações concretas de empregabilidade, reparação, políticas afirmativas, melhoria do sistema de ensino público.

Por fim, deixo três canções excepcionais que tratam do assunto:

Haiti -Caetano Veloso

A Carne – Elza Soares

Meu Guri – Chico Buarque

Tive de sobreviver a ontem para parir este texto. Termino em lágrimas de raiva, mas de esperança de que a luta antirracista, que está dando os primeiros passos, avance e viceje!

8 respostas

  1. Texto excelente! Chorei. 😪Tenho vergonha e tristeza de conhecer o passado dos nossos ancestrais Pretos, não posso mudar o passado mas posso ensinar aos meus a fazer um futuro diferente. Não é só o Racismo que me incomoda, o preconceito dói na carne. Sou o que sou, tenho minhas falas, sei que em algum momento fui racista ou preconceituosa, luto todos os dias pra me livrar dessa herança. Não tem como mudar o ignorante, pode ter o estudo que for, mas se for cego nunca entenderá. Podemos mudar com atitudes simples, com gentileza, empatia, ensinando nossos filhos que somos todos iguais. 😘

  2. Dar à princesa esse protagonismo não é só contar uma parte da história, é também apagar a resistência constante e crescente representada pelas várias revoltas de pessoas escravizadas durante todo XIX. Muito ainda a ser mudado na nossa visão sobre nossa história, nossa literatura, o abismo que nos constitui. Muito ainda para (des)aprendermos.

    1. Dor. É só o que sei dizer, sentir agora. O João se foi, mas o que fica é a dor por conhecer toda a história que você conta acima, por saber que estamos há mais de 500 anos vendo barbáries sendo feitas a escravizados e ainda têm pessoas que negam, dizem que é mimimi, justificam o exagero. Cada morte de um negro me faz lembrar dos riscos que corremos diariamente somente pela nossa cor, sem sabermos se voltaremos seguros pra casa. Em pandemia, buscando me exercitar em horários menos cheios, o medo de ser confundida com assaltante é diário, pois não é rara a abordagem policial, o preconceito na loja, o segurança seguindo na loja de departamentos. Isso é o dia a dia. Ter pessoas como você, que sentem, que se importam, é colo, choro acolhido, amor e reforço de que sim, tenho direito. Tenho direito de ser igual, de ter acesso, de ser livre e me sentir segura. Choro. A dor é diária, inconsciente, como uma sombra que me lembra sempre que entro num lugar, de que ainda não estamos seguros. Ainda temos cor.

      Gratidão, Cristovam!

  3. Comungo com o seu desabafo irmão. É chegada a hora de nos aquilombar-mos, reunirmos vozes de todos as partes, assumirmos nossas frentes, cada um da sua área, a sua maneira, em combate ao inimigo incomum.

  4. Oi Cris! Muito lúcido, verdadeiro e triste seu texto…Tristeza profunda ler tantas verdades.
    O sistema diariamente nos vende, precisamos nos des-vender. A luta é diária, amarga e tem gosto de sangue. Gostaria de gritar em alto e bom som esse texto!
    Parabéns meu irmão! Ainda temos muito que caminhar e muitos ficarão pelo caminho, infelizmente.
    Um beijo

  5. O fim do racismo tem que ser luta para os brancos. Num país racista como o nosso, a voz negra sozinha não vai produzir os resultados necessários. Você está certíssimo: temos que reconhecer nosso privilégios e dar espaço para que negros alcancem as posições (sociais, políticas, culturais) que sempre lhes foram negadas.

    1. Obrigado pelo comentário! É bom saber que há repercussão. A luta antirracista é nossa também, de todos da sociedade. Não dá pra ficarmos mais só na posição de não racistas. Salve Angela Davis!

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