Já faz um tempo eu pensei uma coisa bem importante para a minha compreensão de mim mesmo: durante os nove meses de gestação, somos uma pessoa só com nossas mães. Espiritualistas dizem que somos indivíduos desde a concepção, alguns advogam até que já somos antes de haver a relação sexual que nos gera. Eu não acredito nisso, porque não sei bem se acredito que a unidade alma/psiquê que me define vem de outra dimensão e habita este corpo. De toda sorte, biologicamente, embora haja dois cérebros, dois corações, dois de tudo, tudo o que somos enquanto estamos na fase de gestação provém dela, da mãe. É o sangue dela que alimenta as meioses e mitoses formadoras dos filhos e filhas.

Na minha concepção (e nem prego isso, nem defendo como crença para ninguém), só nos tornamos indivíduos a partir do rompimento do cordão umbilical. É aí que, de fato, aparece o outro ser, aquele que será na face da terra, as dores, os sofrimentos, as alegrias, as derrotas e vitórias, enfim, o tempo que atravessamos no planeta terra, habitando esta unidade de carbono, cheia de sinapses e circuitos eletroquímicos.

Essa compreensão só me fez amar ainda mais a pessoa que me deu vida. Maria Terezinha de Freitas Souza. Eu a conheci com este nome, mas ela teve outro, de pia: Maria Terezinha Mundim de Freitas; e sempre foi conhecida por um apelido herdado da avó paterna, Marica; mas para mim, Mãe.

Reveillon 2019/20 em Brasília. Mal sabíamos que ficaríamos 10 meses sem repetir o encontro

Por ouvir histórias e recolher fragmentos, descobri que ela foi uma mulher muito sofrida. Demorou a se casar, não sei se teve namoros, nunca fala muito disso, não era tratada com carinho e afeto pelos pais dela, meus avós e teve uma relação muito tumultuosa com meu pai, um homem sofrido, mas também grosseiríssimo com ela.

Ontem ela completou 87 anos de vida, dos quais acompanhei 55. Eu morei com meus pais até os 20 anos. Depois me mudei para Brasília e fui viver a minha vida, mas há cenas marcantes desse período de convivência. Uma delas, numa festa de família. Esperavam que ela fizesse o prato de meu pai, era uma convenção. Ele ficava conversando e ela ia à mesa, fazia o prato dele e entregava na mão. Não me lembro exatamente quantos anos eu tinha, mas me lembro perfeitamente da situação: varanda da casa de meu avô, pessoas da família e alguém perguntou a ela se não faria o prato do marido. Na hora eu nem vi e respondi que ele tinha mãos, pernas e não fazia o menor sentido alguém o servir. A conversa parou, ele se levantou e minha mãe nunca mais fez o prato dele.

Jamais falamos sobre isso, mas sei que ela sentiu como uma libertação.

Recentemente, antes desses tempos pandêmicos, eu passei um recesso inteiro na casa dela. São 15 dias de recesso de final de ano. Ao nos despedirmos, ela disse: não somos muito de falar, mas eu gosto muito quando você fica muito tempo aqui em casa. Fazia mais de 30 anos (hoje são 35) que eu tinha saído de casa e para mim já era um assunto naturalizado. Foi só então que me apercebi do quanto eu fiz falta a ela esses anos todos. Meu coração sofreu um certo aperto, uma dor inexplicável. Depois disso, sempre que posso vou me encontrar com ela.

Nós na praia de Ipanema

Ela gosta de me ver no palco. Em 2013, minha volta oficial pelo curso da Susanna Kruger na Casa de Cultura, ela já se ressentia dos joelhos e o elevador do teatro Laura Alvim quebrou. Ela quis ir embora e eu fiquei desolado, porque, afinal de contas ela tinha viajado de Goiânia para o Rio só para me ver. A peça era Viúva, Porém Honesta, do Nelson. Quando Susanna soube que mamãe iria embora pela falta do elevador, foi ao átrio de Casa de Cultura e perguntou quem era a mãe do Cristovam. Quando ela apareceu, ela pediu aos seguranças para levarem-na de cadeirinha os quatro andares até a plateia.

Em outra ocasião, eu e Tomás apresentávamos Uma História do Zoológico, numa pesquisa teatral conduzida pela saudosa Claudia Martelotta. Na peça, Jerry esbofeteia Peter e ela brincava com o Tomás que atiraria um sapato nele.

Antes ainda, muitos anos atrás, ela descobriu sem querer numa carta caída acidentalmente – se é que isso existe – sobre a minha orientação sexual. Ela nunca manifestou concordância ou desacordo, seguiu apenas me amando.

Ano passado tiramos umas férias de uma semana no Rio de Janeiro. Aluguei pela Bancorbrás o Othon Palace Copacabana e ficamos eu, ela e minha irmã mais nova numa suíte muito boa. Era o feriado de São Jorge, com páscoa. Íamos à praia sempre e ela pode, mais uma vez, me ver no palco. Ela gosta disso e eu gosto ainda mais.

Ela faz questão de morar numa casa de 3 quartos para que um deles seja meu, embora eu esteja longe há tanto tempo. Isso teve um significado gigantesco. Não importa o quanto somos diferentes e gostos, vivências e hábitos, o fato de eu ter sido ela por nove meses antes de nascer tem um poder inenarrável, indescritível. Essa mulher que aturou desaforos, foi submissa, hoje tem um lugar especial no meu coração e no da minha irmã. Vivemos ambos com atenção aos desejos, gostos e vontades dela, nos esforçando para que ela tenha qualidade de vida, respeito e conforto nesses anos de velhice. E aqui, velhice não tem a conotação negativa habitual. A lucidez dela é o essencial. Hoje ela está com a locomoção limitada, mas a força calcada nesses anos todos permanece.

PARABÉNS, MARIA TEREZINHA, MARICA, MAMÃE. 87 ANOS DE TERNURA, AMOR E CORAGEM!

2 respostas

  1. Que homenagem emocionante, meu amigo querido ♥️😍😘! Esse amor, para mim, é o que mais se aproxima do amor de Deus!

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