“Quando você for convidado
Pra subir no adro da Fundação Casa de Jorge Amado
Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos

De ladrões mulatos
E outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
E são quase todos pretos
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos, quase pretos de tão pobres são tratados”

Haiti – Caetano Veloso

O coração ainda está apertado de saber que a polícia matou 29 pessoas na favela do Jacarezinho, Zona Norte aqui do Rio de Janeiro. Algumas autoridades saíram aos canais noticiosos para verborragiar: “eram todos bandidos”. E daí? A Constituição de 1988 ainda está em vigor e nela, há uma proibição da pena de morte.

A violência é a única forma de Estado que entra nas comunidades mais pobres espalhadas pelo Brasil afora. O que aconteceu no Jacarezinho é como o olho de um furúnculo. O corpo está infectado de bactérias e, em algum momento, uma bolha de pus se forma e explode. Eu sinto mais ou menos isso quando leio esta notícia.

No jornal O Globo de hoje, no caderno de cidades, há uma matéria dedicada aos acontecimentos recentes, em que se lê: “A LISTA DO JACAREZINHO – Dos mortos, 25 tinham antecedentes, mas só 4 eram alvo de inquérito sobre favela”

Daí vêm as fotografias e um “drops” com um resumo da folha de antecedentes criminais. Não vou listar tudo aqui, mas pinçar alguns: Diogo tinha duas anotações por desacato, em 2014 e 2015 e está portando arma numa foto; Evandro foi preso em 2005 e libertado em 2016 – porte de arma, uso de droga (que nem é mais crime desde 2006) e uso de documento falso; Luiz – anotações de tráfico e uso de entorpecentes de 1998 e 2001; Pablo – indiciado por roubo a transeunte em 2016, foi preso e saiu em 2018, após cumprir pena. Segundo o jornal, eram alvo do inquérito apenas Isaac, Maurício, Richard e Rômulo, todos com idade abaixo de 30 anos e com várias anotações e, quanto a este último, o relatório não trouxe anotações criminais. Nas fotos, chama a atenção a cor da pele e traz à memória o livro que li recentemente e do qual falei num post aqui do blog: O Avesso da Pele. Os negros são sistematicamente perseguidos pela polícia neste País. Pode parecer repetição, e é, porque não se pode cansar de bater nesta tecla enquanto esse comportamento repetitivo de ver em cada pessoa de pele mais escura um potencial delinqüente. É o dia a dia dessas pessoas passar por constrangimentos, abordagens policiais aleatórias e desnecessárias, fiscalização em saída de lojas e mercados, olhares enviesados de madames e plaiboizinhos nas calçadas de bairros mais caros, hostilização de porteiros, enfim, o tipo de coisa que quem sofre sabe bem o estresse que é.

Também me trouxe à memória o massacre do Carandiru. Em outro verso da canção da epígrafe, Caetano lamenta:

“E ao ouvir o silêncio sorridente de São Paulo diante da chacina

Cento e onze presos indefesos
Mas presos são quase todos pretos
Ou quase pretos
Ou quase brancos, quase pretos de tão pobres

E pobres são como podres
E todos sabem como se tratam os pretos”

No caso do jacarezinho, o número é um quarto do caso do Carandiru, mas o termo de comparação é, enquanto no presídio, estavam todos encurralados em suas celas, na comunidade carioca, becos e vielas podiam servir de rota de fuga para os “caçados”. Mas o silêncio sorridente da sociedade é o mesmo. Vivemos numa ilusão de nós contra eles, e nos esquecemos do verdadeiro inimigo, que são a injustiça social, o consumismo exacerbado, o individualismo coisificante.

Várias soluções estão sempre sendo apontadas por especialistas, gente que se debruça sobre esse interminável problema com microscópio social, mas a maioria desses especialistas defende que a saída mais eficaz é por meio da educação. Só ela liberta verdadeiramente uma sociedade. Mas Darcy Ribeiro já apontava que a crise educacional não é de fato uma crise, mas um projeto de opressão, cada dia mais aprofundado.

Enquanto a face do Estado que aparece para essas comunidades continuar sendo a do policial fardado, com um capacete e um escudo, apontando uma arma para os moradores, a única resposta possível é mais violência. Nós estamos acostumados a ver esse tipo de manobra como uma resposta do Estado para essa situação, quando, me parece, a verdade é o contrário. A violência urbana é uma resposta dessas populações ao modo como o Estado os trata desde o início de suas vidas.

Moro no Rio de Janeiro desde 2007 e gosto muito de viver aqui. Mas cada dia mais penso no quanto essa cidade nada tem de maravilhosa. Vemos o cartão postal, a Zona Sul, como se fosse a cidade toda, mas, segundo a Wikipédia, cerca de 10% da população carioca vive aqui. Os outros 90% vivem nos demais bairros, a maioria esquecida pelo poder público há muito tempo. E isso é outra reflexão que venho fazendo. Eu vinha pensando que a condução da política econômica desastrada desse desgoverno poderia nos transformar num país do tipo Biafra. Mas a verdade é que já voltamos a ser um país em que um grande contingente de brasileiros passa fome e isso é o grande absurdo destes tempos: a fome não é por causa da escassez, mas por causa da má distribuição. E é desalentador olhar para dados e projeções, da perspectiva da política que vem sendo aplicada, porque só aponta para o aprofundamento dessa situação.

Jacarezinho é a bolha de pus estourando na pele de um Brasil ferido, infectado por desastres políticos e econômicos.

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