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CINEMA

A discussão abolicionista ainda é necessária

Está em cartaz nos cinemas e no Globoplay um filme pra lá de essencial para a compreensão e para a reflexão dos nossos tempos. Trata-se de Doutor Gama, dirigido por Jeferson De, no qual ele retrata um dos advogados abolicionistas mais importantes do Brasil e que por muito tempo foi ignorado, o Dr. Luís Gama.

Doutor Gama

Recentemente Gama tem sido mais lido e estudado e isso tem a ver com a transformação da cultura acadêmica do Brasil nos tempos dos governos Lula e Dilma, mas durante muito tempo, ele era apenas mais um dos muitos negros importantíssimos da nossa história, apagados dos livros oficiais.

Nos tempos atuais, o Brasil atravessa um dos piores períodos políticos de todos os tempos. Após os anos da ditadura militar, que dilapidou os direitos dos trabalhadores em nome de uma fictícia luta contra o fantasma do comunismo, em 1988, com a nova constituição elaborada por uma Assembleia Nacional Constituinte bastante controversa, passamos por oito presidentes da república diferentes.

O primeiro eleito na nova ordem constitucional foi um coronelzinho inexperiente em política nacional, mas com uma bela estampa e um jornalismo bastante inescrupuloso por trás. O Brasil atravessava uma situação econômica devastadora, com uma inflação de dois dígitos por mês e 4 dígitos por ano. Era um desespero sem fim. Tínhamos de comprar tudo o que podíamos no exato dia em que o salário era depositado na conta, porque no dia seguinte o poder aquisitivo já teria caído pelo menos 20%. Esse tal presidente dizia ter uma bala única para matar o tigre devorador da hiperinflação.

No dia 16/3/1990 o Diário Oficial da União foi publicado com um pacote econômico que assombrou todo mundo. Era o dia seguinte da posse e a equipe econômica, pela primeira vez capitaneada por uma mulher, a nada saudosa Zélia Cardoso de Mello – Salvo engano, prima do presidente. Para se ter uma ideia da avalanche social que se seguiu a isso, confira-se a matéria de março de 2020, 30 anos depois do cataclisma no link abaixo:

https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/bbc/2020/03/17/entre-infartos-falencias-e-suicidios-os-30-anos-do-confisco-da-poupanca.htm

Collor foi impedido e Itamar Franco, seu vice, conseguiu a façanha de implementar um plano econômico que finalmente trouxe estabilidade para a moeda e, nessa onda, outro Fernando, o Cardoso, surfou e conseguiu ser eleito em primeiro turno. Seu governo, contudo, continuou não dando nenhum incentivo a políticas de inclusão da população negra. As políticas afirmativas eram ignoradas, o Movimento Negro Unificado lutava arduamente para ser ouvido e a palermice da democracia racial era uma crença comum entre os intelectuais e acadêmicos brancos brasileiros. Aliás, falar em acadêmicos brancos, nesse período, é quase uma redundância. A academia só foi aberta para os povos “não brancos” do Brasil a partir das políticas afirmativas dos governos do PT. Só então as universidades foram ficando mais coloridas.

As aspas em não brancos se justificam porque, no meu entender, toda a população brasileira é não branca, mas não é assim que vários se compreendem.

Essa longa introdução, antes de falar do que realmente interessa, que é o belíssimo Doutor Gama, filme realizado antes da pandemia pelo diretor Jeferson De, e com um elenco majoritariamente negro.

A película está em cartaz nos cinemas, mas também está disponível no Globoplay, streaming em que vi, no sábado e conta a história de um dos mais notáveis abolicionistas deste País. Um homem negro, escravizado pelo pai aos 10 anos para pagar uma dívida de jogo e que, aos 17 anos aprende a ler e escrever, torna-se rábula e luta incansavelmente pela liberdade de vários escravizados.

O filme conta uma parte dessa trajetória, calcada em um dos casos do grande advogado. Resume muito bem a biografia do personagem principal, sem ser piegas nem panfletário. Tem direção e edição sensacionais, e o ator principal é brilhante.

O elenco, composto por Cesar Mello, Pedro Gulherme e Angelo Fernandes, no papel título, nas várias fases da vida; Mariana Nunes na pele da esposa do advogado; Eron Cordeiro, no papel do promotor de justiça que se contrapõe a Luís gama no julgamento principal, dentre outros, é equilibradíssimo. São todos brilhantes em seus papéis e levam a trama com tremenda competência.

Em vários momentos do filme, me lembrei do totêmico Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves, que narra uma trajetória meio fictícia, meio verdadeira, da mãe de Luís Gama em busca desse filho perdido, vendido pelo pai. Luísa Mahin, ou Kehinde, no livro, é a personagem que nos faz compreender muito do que vivemos hoje.

E ainda é muito importante falar disso, porque o Brasil é um País em débito com essa população descendente dos africanos de diversas origens escravizados e trazidos para cá brutal e estupidamente. Não há justificativa plausível para o que acontecia, nem com o tipo de tratamento a que essas pessoas eram submetidas depois de capturadas em seus lugares de origem. E não há como refletir o futuro do Brasil sem pensar nesse passado de dor e crueldade que se perpetua nas falas mais absurdas e abjetas.

Esse comportamento absurdo é o que leva Corte Reais a deixar uma criança tomar sozinha um elevador e deixar de supervisioná-la, porque não podia deixar de fazer as unhas; É o que leva a polícia a atirar 80 vezes contra um trabalhador que voltava de uma festa; o que mata uma mãe grávida numa visita à avó; que entra na casa em que um adolescente está jogando videogame e atira para matar; que desfere tiros contra uma van que levava pessoas dentro de uma comunidade, atingindo uma menina de oito anos. E esses são os casos que me vêm à memória assim, sem pesquisar na internet.

Quantas pessoas estão, neste momento, amontoadas em celas minúsculas, presas provisoriamente, sem julgamento, sem prazo para conclusão de inquérito? Quantas pessoas cometem delitos leves e são condenadas a penas graves, somente porque a cor da pele delas é mais escura? Onde estão os Luís Gama da atualidade?

A obra cinematográfica de Jeferson De tem de servir de alerta para a reflexão dessa situação. E tem cenas icônicas. A magia dos Orixás é sutilmente trazida, mas está presente, o desprezo que os brancos sempre demonstraram para com os negros é demonstrada em várias cenas, mas nenhuma tão icônica quanto a recepção que a fazendeira dá a Gama, ao saber que ele defenderia o escravo que matou o marido dela. Clara Choveaux encarna muito bem a fidalguia luso-brasileira, no pior sentido que essa palavra pode ter.

Outro ponto de destaque é que as mulheres retratadas no filme são fortes, determinadas e, em algumas cenas, verdadeiras guerreiras pela liberdade dos negros escravizados.

O filme tem de ser visto e comentado, estudado e discutido em toda a sua profundidade.

8 respostas

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