Das torturas

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Ontem os noticiosos foram inundados com a verdade escancarada de que o Superior Tribunal Militar, nos anos de chumbo, tinham plena consciência do que ocorria nos porões mais sombrios da escumalha fedida das forças de repressão. Lembrei-me da seguinte anedota, contada por aí: um dos generais que assinou o AI-5, preocupado com as conseqüências do endurecimento do regime, não para os graduados, mas para o guarda da esquina.

Fiquei aqui pensando: para chegar a uma corte superior, além do conhecimento jurídico exigido constitucionalmente, é necessário engolir uma quantidade considerável de sapos e ouriços, abaixar-se até perder a dignidade, frente ao poderoso de plantão no momento oportuno e lamber alguns sapatos. Tudo na vida é política.

Após a divulgação, uma das ministras disse que isso é parte da história, e que não pode mais se repetir, mas será que ela terá forças para lutar contra? Em que ponto estamos da nossa contemporaneidade? A todo momento vemos uma explosão de violência cada vez mais exacerbada. Várias são as notícias de gente sendo morta por arma de fogo em banais brigas de trânsito, feminicídios de montão, assaltos cada vez mais assustadores e uma quantidade incrível de assassinatos cometidos pelas polícias ao redor do País. Embora mais notificados, os do Rio de Janeiro certamente não são os mais violentos. Nesse estado de animosidade da população, o que poderemos nós, os pacíficos?

Mas voltando à divulgação da consciência dos Ministros do STM, a mim ficou a questão: por que não agiram e não denunciaram? Há menções a um educado, polido até, horror à violência exacerbada, mas não há nem tentativa de punição dos agentes públicos envolvidos nas cruéis torturas a que os prisioneiros eram submetidos, nem a denúncia. Desmond Tutu, Nobel da Paz, já havia dito que “Se você fica neutro em situações de injustiça, você escolhe o lado do opressor”.

Ou seja, mesmo com um certo esgar de nojo, os tais ministros ficaram do lado da ditadura, que lhes proporcionava privilégios, e contrários à civilização e aos próprios princípios. É como quem ingere um prato que odeia (tipo sarapatel ou sushi, no meu caso), apenas para agradar o anfitrião, de quem depende.

Houve quem ironizasse a recuperação dessa memória, já que os personagens dessa grotesca tragédia já morreram. Esquece-se de que a ideia por trás dessa escrotidão continua viva e sempre à espreita, para atacar as liberdades democráticas. Ditaduras, com qualquer das colorações políticas, devem ser inaceitáveis, mas volta e meia, em vários locais do planeta Terra, deparamos com pessoas que se acham superiores aos demais habitantes e, por conseguintes, deveriam comandar os destinos dos demais. Platão já defendia o governo por um déspota esclarecido. Mas sabemos o quanto o poder corrompe e o poder absoluto, corrompe absolutamente.

A luta contra a dominação é uma constante para quem tem consciência de ser oprimido.

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