O Admirável Mundo LGBTQIAP+

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Ontem os jornais deram uma excelente notícia: o quarto portador do Vírus de Imunodeficiência Humanas foi definitivamente curado. É um grande progresso para a ciência, porque este vírus é um mistério e uma luta constante, desde que os primeiros pacientes morreram terrivelmente, no final da década de 1970.

Profundamente marcada pelo estigma da moralidade, a propagação descontrolada do HIV causou um horror profundo, especialmente por expulsar dos armários diversas pessoas de vida pública, cujas intimidades foram violadas por uma imprensa sensacionalista. Vimos o comportamento humano retornar a padrões profundamente conservadores e voltados à moral do patriarcado, controlador dos corpos e dos desejos como forma de domínio da epidemia.

Lembro-me ainda de pensar: “justo na minha vez de gozar?”, porque eu estava saindo da adolescência e entrando na idade adulta. Nós, gays, que citando o verso de Caetano Veloso, fomos o “grupo vítima preferencial”, novamente tivemos de retornar ao mundinho puritano e quadradinho da monogamia forçada (claro que não dá certo, mas ficava aquela ideia martelando em nossas cabeças), porque depois dos gays, vieram as mulheres casadas.

Estas foram contaminadas por seus maridos hipócritas, cujo comportamento às claras era irrepreensível aos padrões judaico-cristão-ocidentais, mas depois do pôr do sol, rondavam zonas de prostituição dos travestis.

Por fim, a ciência falou mais alto e retirou de nós, gays, o ônus de sermos o principal vetor, demonstrando que as relações sexuais sem proteção, transfusões de sangue não examinados e qualquer contato com o sangue contaminado era o que de fato transmitia o malfadado vírus.

Hoje, a situação é bem outra, principalmente no Brasil. Ninguém mais desenvolve a síndrome de imunodeficiência adquirida graças aos medicamentos gratuitamente distribuídos pela rede de saúde pública. Milhões de vidas foram salvas. Há o temor desse excremento ora sentado na cadeira do Planalto retire esse tratamento, porque a atual gestão do Mistério da Saúde é um descalabro e uma inépcia jamais imaginados. Medicamentos simples estão faltando nos postinhos, medicamentos controlados, vitais para a sobrevivência de milhares de pessoas estão com entrega atrasada, vencendo nos depósitos.

Mas ao par desta ótima notícia, ontem tivemos a imprensa prestando um imenso desserviço à população, ao associar a propagação da variante de varíola, agora se espalhando entre nós, como uma nova praga gay. Não temos sossego.

A OMS teve de se manifestar, desmentindo isso. Mas é assim, sempre há que se jogar a culpa num grupo minoritário qualquer. Isso é uma política da mídia? A quem interessa essa desinformação orientada a alimentar mais preconceito contra nós.

Eu passei pela faculdade de jornalismo na década de 1980 e garanto, tinha uma porção de LGBT’s nos bancos ao meu lado. Muitos bastante enrustidos, temerosos de que isso pudesse prejudicar uma carreira profissional, o que era inteligível, principalmente na época.

Assim como atores de teatro, cinema e televisão, tinham uma imagem pública a proteger e o preconceito era, então, enormemente maior que hoje. Mas eu jamais entendi como podiam, tanto os profissionais da arte e do entretenimento, quanto os da comunicação social, atacar a própria classe em nome do “mercado”. Dava já para fazer uma política de aceitação e de reconhecimento da importância do respeito a todas as minorias, mudando por dentro a mentalidade e ajudando a combater o preconceito.

Agora estamos já na terceira década do século XXI e ainda temos de lutar contra essa mídia preconceituosa? Tenho só uma coisa pra contar a vocês: nós, LGBTQIAP+ estamos aqui desde o princípio da humanidade. E na sociedade ocidental, sobrevivemos à Idade Média, à Modernidade, à Inquisição, à perseguição dos Nazifascistas, à colonização europeia nas sociedades originárias e não fomos extintos. Nem seremos. Somos uma força da natureza!

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