Sereias, papai noel, centauros e a questão racista.

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Foi liberado recentemente no Youtube o trailer do filme A Pequena Sereia, no qual Ariel será representada por Halle Bailey, uma jovem atriz negra, nascida em 2000.

Até aí, nada demais, porque ela já tem uma carreira consolidada de cantora e compositora, o que faz desde a infância, sob a orientação do pai. Além disso já trabalhou em uma série de sucesso, Grown-ish.

Neste ponto, chegamos ao “mas” da questão. Ela é tudo isso, mas é negra. É uma frase terrível. O só fato dela aparecer nos trailers já levou milhares de pessoas a criticarem a escolha para o papel título, com as mais esfarrapadas desculpas. Tudo bem que a lenda é uma estória nórdica, a pequena sereia é um conto da Dinamarca e tal, mas o que impede a personagem de ter a pele escura? Sereia nem existe! Ou seja, pode ser de qualquer cor.

Lembro-me ainda de uma polêmica anos atrás, quando uma rede de xopincenters contratou um homem afro-brasileiro para o papel de papai noel no natal. Logo choveram críticas. Gente, papai noel tampouco existe. E para ser representado em lojas promovendo vendas na época mais comercial do capitalismo, deveria ser irrelevante a cor da pele. A não ser para os racistas. Esses não suportam ver pessoas negras em posição de destaque.

Para eles, vale mesmo é a figura do filme Fantasia, da mesma produtora, que tem a reprodução exata do que os conservadores pretendem conservar, no trecho da Sinfonia nº VI de Beethoven, quando os Centauros e as Centauras vêm para brincar. Há uma Centaurazinha criança, que atende aos caprichos das demais. O nome dela é Sunflower e ela é negra. Penteia os cabelos e lixa os cascos das “princesinhas”, todas brancas. Nesta posição, ninguém questionou a existência de uma Centaura negra.

Cena do filme Fantasia

Por outro lado, viralizaram as reações de crianças negras assistindo ao trailer com Halle. A alegria de se verem representadas me trouxe à memória a fala de Thaís Araújo, ano passado no Roda Viva, falando sobre isso: “O sentido da representatividade é você se sentir possível.” https://www.youtube.com/watch?v=NDmPYX7YZww

Thaís reporta o quanto era difícil para ela se sentir representada, porque só conhecia Zezé Motta. Não sabia quem era Ruth de Souza, Léa Garcez. Além disso, a essas atrizes só eram atribuídos papéis de subserviência. Não havia médicas ou advogadas, muito menos pessoas negras endinheiradas. E isso é um sintoma do racismo estrutural. Como eu já disse em outro post daqui do Blog, o Drama é uma excelente forma de estimular a aprendizagem. A dramatização de situações foi utilizada nas mais diversas culturas como forma de ensinamento, principalmente religioso.

Assim, a sociedade parece ter acordado de que há uma doença causada pela exploração das populações das diversas etnias africanas pelos europeus durante toda a era moderna, chegando aos tempos contemporâneos na forma desse racismo estrutural que abate a todos.

Felizmente as ações afirmativas, iniciadas ainda em meados do Séc. XX nos Estados Unidos da América do Norte, começaram a surtir efeitos. Aqui, depois de muita luta do Movimento Negro Unificado, com o apoio de Lélia Gonzalez, Milton Santos, mais recentemente Djamila Ribeiro, Conceição Evaristo, essa situação parece estar se alterando.

Há até quem diga que o golpe de 2016 aconteceu porque a burguesia percebeu que os filhos dos “serviçais”, por haverem conquistado o direito a cursar faculdades, não seriam “serviçais” de seus filhos. Durante as primeiras décadas do Séc. XXI, a filha do pedreito, o filho da diarista, a filha do motorista podiam se tornar médicos, advogados, professores, quebrando assim um ciclo vicioso e tentando iniciar um ciclo virtuoso.

A exploração e a opressão criam o preconceito

A minha geração e as que me precederam foram criadas num ambiente pernicioso em que a exploração e a opressão eram moeda corrente, em que o preconceito de cor era naturalizado. É difícil – mas longe de impossível – alterar essa percepção. O que precisamos o tempo todo é estarmos atentos e vigilantes às nossas reações e nossos sentimentos. Especialmente em momentos de extrema emoção, quando o sistema límbico passa a atuar sobre o sistema racional, e mudarmos a chave de pensamento.

Olhar em volta dos lugares que freqüentamos para o lazer e a diversão e perceber a cor das pessoas em volta, em que posição estão, não presumir nada ao encontrar uma pessoa negra numa empresa e, principalmente, tratar a todos com respeito.

Por fim, aprender a lição de Angela Davis: num país como o Brasil, não basta não ser racista. É preciso ser antirracista!

One Reply to “Sereias, papai noel, centauros e a questão racista.”

  1. Excelente e necessário esse texto, Cristovam! O racismo está tão arraigado que muita gente não consegue/não quer ver a diferença bizarra entre preconceito e opinião.

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